Pelo Que?

Gradativamente a população toma ciência da situação política do país, ou assim a mídia faz parecer; todavia, a ciência da própria ação como agente de mudança ainda jaz oculta na penumbra da ignorância temática ou da comodidade.

De fato, a problemática em questão é estrutural, histórica, longínqua, porém não é inerente ao corpo político. Conhecer bem história, amplamente falando (não generalizando, mas abarcando todas as vertentes possíveis - antropológica, filosófica, política, econômica, cultural, etc.), deixou de ser medida de erudição e tomou a característica de ferramenta indispensável para o entendimento sócio-político-econômico de qualquer era, inclusive a contemporânea.

Seria exigência em demasia? Parece-me mais insuportável sujeitarmo-nos às situações que nos são impostas, constantemente, e ao longo de toda a vida, sem ao menos uma perspectiva na qual focar os esforços. Portanto, o conhecimento se faz indispensável. 

O ponto importante a se tirar disso é informar que as pessoas não estão preparadas para defender os interesses nacionais, intelectualmente e espiritualmente (no sentido de perceber que talvez seja necessário tomar medidas que alterem sua vida). Sem contar o alto grau de utilitarismo social, onde apenas existe atuação efetiva por parte de algum grupo, se os benefícios forem imediatos e destinados principalmente ao grupo em questão. Não há nacionalismo brasileiro, há um nacionalismo regional, um nacionalismo sócio-econômico, um nacionalismo étnico. Só há a especificidade.

É preciso diminuir o hiato entre a ignorância e a sapiência, dessa forma diminui-se o hiato entre a teoria e a prática. Do contrário as pessoas continuarão exigindo mudanças das quais elas não querem ser as protagonistas ou nem mesmo sabem como executá-las. Soma-se a isso a existência de um comportamento extremamente equivocado que é acreditar que após o ato do voto, escolher um candidato, não é mais precisa se ocupar dos temas políticos.

Tenho para mim que uma sociedade que ganha um regime democrático não faz jus a ele. As lutas brasileiras ao longo da história, ainda que reafirmassem algum nacionalismo, restringiam-se aos interesses econômicos dos ruralistas latifundiários e os industriários. O status de Império Brasileiro serviu para luzir à família portuguesa escorraçada de Portugal, o fim do regime da escravidão foi imposto, a independência “comprada”, as revoltas dos negros suprimidas e eles jogados para a periferia. Que tipo de democracia nós temos senão aquela sujeita ao controle econômico, sem brio, sem nação; democracia de classes. Essa “conquista” e a forma como foi administrada desde então contribuiu para manter a imaturidade política, o não engajamento social na construção do corpo governamental.

Não é a toa que gerações dos sobrenomes influentes do período colonial ainda reinam direta ou indiretamente; aquela hegemonia atravessou as décadas e até hoje permanece. Manteve-se a população afastada do contexto político, mas ao mesmo tempo lançando mão dos meios de manipulação, tanto na culpabilidade quanto na idéia nobre de cumprir o papel de cidadão, criou-se a falácia da democracia conquistada pelo povo, para o povo; o voto. Explica-se aí o motivo de termos sempre as mesmas caras governando, explica-se nessa imaturidade política o motivo de termos um ex-presidente que sofreu impeachment, mas que foi eleito senador. E explica-se aí porque hoje as pessoas não querem governo da direita nem da esquerda, mas querem o governo pelo país, porém sem explicar de que forma isso se daria sem a intervenção populacional.

Vivemos em uma menoridade, segundo descrita por Kant. Uma população incapaz de ser autônoma, incapazes de desenvolver opinião e de por em prática ações de mudança independentemente.

É preciso romper os limites da sabedoria diária e empírica, e aperfeiçoá-la pela razão, pela lógica. É preciso saber, conhecer, entender e depois reivindicar. Abastados do conhecimento se torna mais palpável o que atacar e principalmente o que defender, o que propor. Nem que essa proposta seja a anarquia, o caos. Afinal, como Heráclito já preconizara, a ordem coexiste com o caos, aliás, são complementares; talvez seja disso que o país precise; recair em uma caótica luta da população contra um governo que usa da democracia como controle de massas. Aí sim, qualquer coisa que resulte disso, bom e mau, poderá ser chamada de conquista do povo, conquista da nação.

Estou aberto a correções e divergências. Afinal, estou no processo do reaprendizado.

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