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Mostrando postagens de 2019

“Mas os africanos também escravizavam”

Seguindo a sequência de textos em que tratamos das opiniões que são tomadas como argumentos, eis que temos mais uma. Sempre que a questão da escravidão é posta em discussão alguém carteia esta pérola como se ela pudesse alijar o argumento do desenvolvimento histórico-sociológico do racismo no Brasil. De fato o povo africado era constituído por tribos que conflitavam entre si, de modo que aquela que era conquistada tinha seus membros escravizados. Isso é tão comum como é familiar aos gregos, fundadores da primeira ideia de democracia; eles também escravizavam tribos que eram conquistadas (embora alguns não acreditassem adequado fazê-lo com povos gregos, Platão incluso). Inclusive a base do desenvolvimento econômico e social era dada através da guerra e seus espólios; riquezas, servos e escravos. Todavia, a organização social tradicional, do feudalismo às mais remotas formas de organização, tinham sua base econômica organizada sobre outros termos que não era o lucro; gravitavam ao re...

“Não há racismo nem preconceito no Brasil”

Eis uma opinião exortada como fato, como verdade. Por mais que a verdade dos fatos a contradiga, por mais que a verdade devesse libertar, pessoas parecem presas aos limites da erística. Essa opinião não é nenhuma novidade, mas uma herança histórica daquilo que se convencionou chamar de democracia racial, qual mostraremos tratar-se de um mito, cuja peculiar coincidência de sua reminiscência seja gravitar ao redor de outro mito tão ignominioso quanto este mesmo.  Surgido por volta do século XIX essa crença da democracia racial era o produto de uma adaptação do racismo europeu às condições do Brasil desta época: um híbrido entre colônia e reino, cuja população era composta majoritariamente de negros e mulatos e onde a própria elite branca tinha sua “pureza” questionável, havia uma predisposição para o preconceito, todavia com certas especificidades. Aquelas teorias racistas europeias que naturalizavam o inatismo das diferenças raciais, e a degeneração pela mestiçagem, passaram ...

Naturalismo x Sociologismo

Há muito conflitam paradigmas naturalizadores e sociológicos; eu mesmo recorrentemente classifico a humanidade enquanto produto estrito dos processos sociológicos, especialmente com o intuito de eliminar os discursos que naturalizam as disposições axiológicas dadas nas sociedades. Porém, eis que estava aqui errante pelos pensamentos, e algo me ocorreu: que de fato esses paradigmas não conflitam, mas fazem parte de uma mesma forma de compreender o desenvolvimento da humanidade. Independente da doutrina antropológica que se escolha, seja a evolucionista unidirecionalista, a difusionista, a culturalista, enfim, independente delas, todas compreendem a ideia do surgimento inicial em grupos. Antes mesmo do processo de hominização-humanização, as espécies sempre viveram em associações, salvo na elucubração rousseauista, qual ele mesmo admitiu tratar-se de uma construção teórica hipotética. Pois bem, posto que não exista na origem das sociedades humanas nenhuma que o tenha sido cons...