“Mas os africanos também escravizavam”


Seguindo a sequência de textos em que tratamos das opiniões que são tomadas como argumentos, eis que temos mais uma. Sempre que a questão da escravidão é posta em discussão alguém carteia esta pérola como se ela pudesse alijar o argumento do desenvolvimento histórico-sociológico do racismo no Brasil.

De fato o povo africado era constituído por tribos que conflitavam entre si, de modo que aquela que era conquistada tinha seus membros escravizados. Isso é tão comum como é familiar aos gregos, fundadores da primeira ideia de democracia; eles também escravizavam tribos que eram conquistadas (embora alguns não acreditassem adequado fazê-lo com povos gregos, Platão incluso). Inclusive a base do desenvolvimento econômico e social era dada através da guerra e seus espólios; riquezas, servos e escravos.

Todavia, a organização social tradicional, do feudalismo às mais remotas formas de organização, tinham sua base econômica organizada sobre outros termos que não era o lucro; gravitavam ao redor das formas pautadas na reciprocidade e redistribuição. Nem sequer a economia tinha tanta importância, ela era mero acessório daquelas sociedades.

No tocante à reciprocidade, ela funcionava mediante a obrigação de dar, receber e devolver, um presente, cujo valor intrínseco em termos modernos era nulo, mas selava essa instituição social importantíssima, o sentido de reciprocidade. No que diz respeito à redistribuição, estava mais próxima dos modelos comunistas, em que o próprio feudalismo é exemplo. Havia, portanto, estruturas sociais mais horizontais, como tribos comunistas antigas, e modelos mais verticalizados, como os feudos, mas ambas tinham uma lógica redistributiva; o produto era centralizado em uma instituição que o redistribuía para os membros do grupo. Então, mesmo que se utilizassem de escravos ou servos, essas estruturas eram movidas por lógicas internas diferentes e até avessas ao que ocorrera com o advento do capitalismo; nelas, os escravos e servos não eram mercadorias.

É com o desenvolvimento do capitalismo que se transformam os paradigmas a ponto da escravidão moderna adquirir especificidades diante das formas antigas de escravidão e servidão. O leitmotiv do capitalismo é o lucro, elemento que não existia nas formas pautadas na reciprocidade e redistribuição. É por isso que a escravidão moderna possui características ignominiosas tremendas: a subversão da humanidade à mercadoria sustentava-se em função do lucro.

É por isso que a afirmação de que os negros escravizavam outros negros não tem efeito nenhum em amenizar a escravização moderna: pensada, organizada e sistematizada em função do lucro, sua quantidade foi elevada exponencialmente e sua forma transformou-se totalmente. O que o capitalismo fez, em termos de escravidão, não tem precedentes na história da humanidade, é por isso que se faz tão importante nunca esquecê-lo.

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