A República - Platão - Resenha atualizada
A
guerra do Peloponeso colocara Atenas em uma situação de sujeição à Esparta,
após sua derrota. A derrocada da democracia ateniense e dos anos dourados de
Péricles suscitaram em alguns pensadores os problemas daquela forma de governo
e dos valores políticos subjacentes a elas.
É
com essa perspectiva que Platão escreve sua obra, colocando nos diálogos entre
Sócrates, Céfalo, Glauco, Adimanto, Polemarco, e Trasímaco, os questionamentos
sobre o conceito de justiça. Na busca dela, ele perpassa pelos valores subjacentes
à sociedade ateniense como em tom de crítica, mas principalmente de proposta de
mudança.
Ao discorrer sobre a justiça no
indivíduo, Sócrates, a procura no Estado, visto que este é a manifestação
daquele; apontando os comportamentos que tornam justos os cidadãos e os
políticos, ele evidencia justamente seu oposto: os comportamentos perniciosos,
degenerados e injustos do povo e de seus governantes.
Com isso, Platão critica o sistema
democrático de governo, discorrendo comparativamente com sua proposta de
governo ideal. Sabendo que se trata de uma utopia, sua intenção é também
evidenciar a degeneração do sistema político vigente e dos valores subjacentes
à sociedade.
Em seu encontro no Pireu com alguns
companheiros, Sócrates inicia uma conversa sobre a origem da justiça, o que esta
seria e no que se fundaria. O primeiro argumento é o de Céfalo: “a riqueza, na
realidade, contribui de maneira decisiva para não enganar nem mentir, sequer
involuntariamente; para não ficar devedor de sacrifícios a um deus ou de
dinheiro a um homem” (p. 14). Em síntese, esta tese de justiça afirma que ela
seja não mentir e devolver o que é devido a outro. Para Sócrates, no entanto,
mentir para preservar uma relação, ou uma boa causa, é lítico, e devolver a alguém
o que lhe é devido nem sempre constitui justiça – o exemplo dado por ele é
sobre devolver a alguém uma arma que fora emprestada em estado mental normal,
mas que agora, acometido de loucura, o dono da arma a exige de volta.
Prosseguindo nos diálogos Polemarco
assumo o lugar do pai e insiste na tese, aprimorando-a: “(...) é necessário
restituir a cada um o que é seu” (p. 15), “(...) aos amigos se deve sempre e
somente fazer o bem” (p. 16), “beneficiar os amigos e prejudicar os inimigos”
(p. 17). Contra essas colocações Sócrates coloca a justiça não relativista; de
forma que prejudicar alguém, mesmo que inimigo não configura um comportamento
que enseje o bem. Aquele que prejudica um inimigo pode fazê-lo no uso de
ferramentas injustas, como o roubo de suas provisões; alguém que se engane
quanto ao amigo pode beneficiar um inimigo oculto, portanto pelo risco do
engodo (e da injustiça) e pelo valor absoluto de justiça, essas teses são
derrubadas.
Trasímaco, figura representante das
ideias sofistas, aborda Sócrates tentando desqualificar a maiêutica, exigindo
dele uma definição clara do que seria a justiça, e não essa busca pormenorizada
através de perguntas e respostas. Sua tese “que a justiça não é outra coisa
senão o interesse do mais forte” (p. 25) tem por fundamento que os mais fortes
sabem o que lhes seja útil, e se baseia nas formas de governos, onde este,
sendo o mais forte, exige do povo a obediência, e esta configura a justiça.
Sócrates arrasta Trasímaco com a argumentação de que a arte de governar, assim
como toda arte, não existe para ela mesma, mas para algo além dela, ou seja, o
governo não comanda para si, mas para o povo, portanto, se o governo usa da sua
prerrogativa em detrimento do povo, não se realiza a justiça.
Para Sócrates, o que leva alguém à
governar não é o prazer, a ganância e as possibilidades ilimitadas, como
afirmado por Trasímaco, mas o medo:
Mas o castigo supremo consiste em ser
governados por quem é moralmente inferior, no caso em que o cidadão honesto não
queira assumir o poder. É o temor desse castigo que, segundo minha opinião,
impele os melhores a governar, se necessário. E então eles chegam ao poder não
como em direção a alguma coisa de bom, nem para nele permanecer comodamente,
mas como em direção a um dever inevitável, porque não podem confiar suas
funções a pessoas melhores ou pelo menos iguais a ele. Se o Estado fosse
composto de homens honestos, talvez haveria uma corrida para não governar,
exatamente o contrário do que acontece agora (p. 36).
Segundo Trasímaco o injusto sempre
se prevalece sobre o justo, sendo portanto melhor incorrer na injustiça. Sócrates, então, coloca também que a justiça
tem valor absoluto, não podendo ser utilizada para realizar o mau. Quando
alguém se prevalece sobre outro, realiza-se a injustiça; até mesmo entre
criminosos, para a consecução de um plano maléfico, exige-se a justiça entre
eles, sem ela nenhum projeto chegaria à realização.
A contragosto Trasímaco aceita o que para ele
fora uma derrota.
Glauco e Adimanto fazem suas
colocações sobre a justiça, não pelos seus pareceres, mas pela ideia corrente
sobre ela, evidenciando justamente a ideia corrente na sociedade ateniense.
Nessas perspectivas, a justiça não seria boa em si, mas apenas um meio de
proteção. Como a possibilidade de todos os homens realizarem seus desejos
irrestritamente colocaria o constante estado de alerta e medo, exige-se assim
que cada um abra mão do seu direito irrestrito, configurando injustiça daquele
que fuja dessa regra. Portanto a justiça é amarga, em sua exigência da
abstenção pela proteção.
Mais do que a justiça amarga, o
ideal, para alguns, seria não ser justo, mas parecer justo. Aproveitando os
benefícios da injustiça e da aparência de justiça, o indivíduo seria mais feliz
do que aquele realmente justo.
A partir desse ponto Sócrates decide
criar um Estado perfeitamente justo e contrapô-lo aos demais, buscando assim
comparar, se possível, os níveis de felicidade e responder as teses de Glauco e
Adimanto.
O espaço territorial não deve ser
muito pequeno, que não comporte toda sua população, nem grande demais, que
possa perder a coesão e se parecer com um aglomerado de pequenas cidades,
“então, o melhor limite de expansão para nossos governantes poderia ser quanto
representasse o suficiente para o poderio e a grandeza do Estado, deixando de
lado qualquer território” (p. 124). Sua estrutura divide-se em três níveis:
governo, exército, e população em geral – artesão e agricultores. Os indivíduos
que compõem cada esfera possuem em si características inatas “donde se conclui
que mais coisas são feitas, melhores e mais facilmente, quando cada um se
aplica a uma só atividade, segundo sua inclinação e no momento certo, sem se
preocupar com as outras” (p. 62). E a justiça se realiza quando cada parte cumpre
com sua finalidade em harmonia:
Com efeito, a justiça, pelo que parece,
seria algo similar. Mas ela não diz respeito ao comportamento externo, mas ao
interior que envolve realmente o próprio individuo e suas faculdades. Graças a
ela, o homem justo não permite a nenhuma das três características da alma
exercer funções das outras duas, criando-se obstáculos recíprocos; pelo
contrário, estabelece uma verdadeira hierarquia entre elas, torna-se o
dominador, o educador e o amigo de si mesmo, harmoniza suas três faculdades
internas (...) (p. 149).
O governo desse Estado seria
executado pelos filósofos, “aqueles que se comprazem em contemplar a verdade”
(p. 187). Somente estes, e eram poucos com essas capacidades, teriam condições
de saber o que é melhor para sua cidade. A defesa seria executada por homens e
mulheres, selecionados segundo suas aptidões, para a composição do exercito;
viveriam em comum entre si, apartados dos demais, não teriam posses de bens nem
dos filhos, que seriam criados em comum. Os ritos nupciais seriam controlados
pelos reis-filósofos, que “sorteariam” os casais, e somente então, estes teriam
o direito de terem relações. Sua alimentação, moradia e necessidades materiais,
seriam providas pelos artesãos e agricultores.
Quanto ao indivíduo, sua alma também
era dividida em três níveis: o racional, o passional, e aquela regida pelos
apetites da carne.
O homem justo é aquele que cada
parte da sua alma executa, sujeita aos limites da mais nobre, aquilo pela qual
existe. Não é uma negação dos apetites e das paixões, mas a sujeição delas à
razão. As ações mediadas pelo coração e pelas pulsões do corpo são a expressão
máxima da degeneração humana. Portanto, é a razão que sempre deve comandar. Nos
reis-filósofos essa parte da alma é elevada, nos exércitos, a passional, em seu
amor pela pátria é notória, e o resto da população age através das pulsões e
desejos do corpo.
Para saber quais indivíduos ocuparão
cada espaço, a educação deve estimular as potencialidades, descobrir os valores
e direcionar o restante do ensino segundo cada virtude. Posto isto, Sócrates
relata o que seu Estado deve ter quanto à musica, a ginástica, a aritmética, a
geometria e a filosofia, como ferramentas de ensino e estímulo das
potencialidades de cada um. A importância do ensino é tamanha que mesmo aqueles
que apresentavam potencial para a filosofia, quando mal educados, tornam-se os
piores inimigos da humanidade:
Então, uma natureza filosófica como a
definimos, se tiver educação apropriada, a meu ver, se desenvolverá
necessariamente e atingirá o ápice da virtude. Se, no entanto, for semeada e
plantada em terreno inadequado, terá resultado oposto, a menos que um deus a
salve. (Parte II, p. 19)
Aqui
se vê a reforma do ensino que Platão enseja para Atenas. O que vinha se
ensinando até então era a arte da retórica e do convencimento a despeito da
verdade; arte perpetrada na Ágora ateniense e de difícil persuasão pela verdade:
“não houve, não há e não haverá jamais pessoa educada na virtude que possa
combater a educação ministrada por esses;” (Parte II, p. 20). Para Platão, percebido
através do discurso de Sócrates, há um grande esforço por fazer parecer o
melhor orador aquele que quer o melhor para o Estado, e o filósofo aquele ser
estranho e inútil.
Sócrates
explica que a fama ruim atribuída á filosofia se deve a adesão de figuras
despreparadas, que adentram seu seio demasiado cedo. Ele relata os processos
corretos de ensino, testes e exercícios que prepararão o homem para fruir e
ensinar filosofia; especialmente no tocante á dialética. Um exercício do
desenvolvimento teórico, científico e pessoal que se dá pela maiêutica, pelo
debate e pela gradual ascensão do conhecimento. Nessa definição dos critérios
ideais para o exercício filosófico, fica cada vez mais evidente o não
pertencimento dos sofistas na nobre classe dos filósofos.
Através
da alegoria da caverna, descreve-se a trajetória do indivíduo, da ignorância e
obscuridade à ascensão pela razão à luminosa virtude do bem. O papel do
filósofo é o mesmo do indivíduo que escapa da caverna e vê o plano das ideais,
e a realidade imutável das coisas, e deve retornar à caverna para tentar
resgatar os demais da sua ignorância.
Posterior
à discussão da essência da filosofia e seu representante, inicia-se a discussão
dos tipos de Estados existentes em comparação com o Estado ideal:
Não é difícil. As quatro formas de que
falo são comuns e tem seus nomes precisos. A primeira, a mais elogiada é a de
Creta e de Esparta. A segunda, também segunda em elogios, é chamara oligarquia
e é uma forma de governo repleta de graves defeitos. A terceira, oposta à
segunda mas que vem logo depois, é a democracia. Por fim vem a nobre tirania,
superior a todas as outras, quarta e suprema enfermidade de um Estado (Parte II,
p. 77).
O
trecho supracitado não nomeia a primeira forma, que é a timocracia, nem elenca a aristocracia, que já fora tratada e
julgada como boa forma de governo, especialmente se nela governar o
rei-filósofo. É importante salientar que neste caso não se trata de um governo
dos ricos gananciosos, mas daqueles eminentes indivíduos cuja ociosidade
permitira um desenvolvimento intelectual e espiritual, que permitia uma boa
governabilidade.
A
degeneração é geracional, ou seja, as gerações imediatamente seguintes
subvertem as formas anteriores. A derrocada da melhor forma se inicia com
possíveis erros quanto às combinações nupciais e a escolha de indivíduos ao
grudo dos guerreiros, cuja essência se mostra perniciosa. Gradativamente os
guerreiros vão perdendo o interesse pelas virtudes e vão tornando-se autônomos
em relação ao poder central. Estabelece-se assim um intermediário entre
aristocracia e oligarquia, que é a timocracia,
ou seja, o governo dos guerreiros, fundado nas horas e nos prazeres da guerra.
A
oligarquia emerge da degeneração da timocracia.
Nesta ultima forma de governo, os guerreiros não buscam o enriquecimento,
somente a fama, as honrarias de guerra, de forma que a esposa e os filhos ficam
relegados ao segundo plano; gradativamente as reclamações da mãe e os
comentários de outras pessoas suscitam o ódio do filho em relação a esses
comportamentos. Na oportunidade de assumir o controle, os filhos o fazem,
despojam os pais de seu poder e posses, e iniciam uma forma de governo pautada
na ganancia e na riqueza material.
Neste
novo cenário, o governo já deixara de ser regido pela virtude, as relações
comunitárias estariam comprometidas, de forma que o mercantilismo impera. Uma
forma de governo pautada na ganancia, riqueza de uns e pobreza de outros,
fomenta agitações na população. Os filhos dos oligarcas, mal educados e em amizades
duvidosas passam a questionar a forma de governo paterna. Cai por sublevações
populares o governo oligarca, e instala-se a democracia, cujo maior prêmio é a
liberdade.
Esses indivíduos ainda oscilam entre
uma conduta controlada, mas de longe mais libertas: do ensino rigoroso, da
busca pelas virtudes, da conduta ascética. Buscam uma vida plena de liberdade
em relação às leis, ao Estado e aos demais. Os filhos destes homens, crescidos
nesse clima de total falta de limites sequer receberam a educação de seus pais,
tendo assim a predisposição ao completo desinteresse no que diz respeito aos
interesses do Estado coletivo, em benefício exclusivamente individual. A
liberdade, prêmio da democracia se torna, em seu uso desmedido, motivo da
derrocada da democracia. Em um cenário de generalizado caos, o povo elege
alguém que se diz capaz de organizar o todo, com discursos heroicos e
demagógicos, ascende ao poder um indivíduo cuja parte nobre da alma está
dominada às concupiscíveis. Estabelece-se assim, a tirania.
A
tirania é a quarta forma degenerada de governo; expressão máxima da falta de
virtudes e do destino da democracia. Toda tirania nasce da democracia, segundo
Sócrates. Na análise do Estado tirânico e do cidadão tirânico Sócrates
realizará a comparação entre aquele feliz e aquele infeliz, respectivamente o
perfeitamente justo e o perfeitamente injusto.
Como
já fora demonstrado, o homem feliz é aquele em que a hierarquia da alma é
respeitada, e as funções racional, passional e apetitiva se harmonizam. No caso
do cidadão tirânico, seus desejos não necessários, fundados em Eros ou nos
apetites da carne, superpõem o comando da parte racional, rompendo a hierarquia
da alma e a harmonia do corpo; No Estado Tirânico se dá o mesmo, o pior
indivíduo comanda, não segue preceitos racionais, filosóficos, mas apenas o
mando e demando pautado na subjetividade. Mas este que comanda seria, para
Sócrates, o mais infeliz, pois não só é um tirano em si, como um rei-tirano.
Essa situação o coloca como inimigo de todos, obrigado à subserviência pela
própria segurança; obrigado a usar de mercenários como escolta; obrigado a
bajular seus intendentes ou acorrer à violência para conseguir obediência; em suma:
Na realidade, mesmo que alguém não
acredite nisso, o verdadeiro tirano é um verdadeiro escravo por sua extrema
servidão e baixeza, é um adulador dos piores e, evidentemente, não pode
satisfazer de modo algum seus desejos. Melhor, falta-lhe quase tudo e, aos
olhos de quem sabe perscrutar o fundo de sua alma, demonstra-se realmente
pobre, cheio de medo, de convulsões e de dor por toda a vida, se verdade é que
sua condição se assemelha à do Estado por ele governado (Parte II, p. 120).
Finalizada
essa jornada de decaimento do melhor governo ao pior, Sócrates envereda pela especulação
racional dos benefícios, terrenos e post
mortem, da prática das virtudes e da justiça, assim como das punições no
caso da sua abstenção. Concluindo em sua comparação entre justiça e injustiça a
plena vantagem da primeira sobre a outra.
A
obra platônica enseja confrontar o pensamento sofista que permeia a sociedade
ateniense, que seria o responsável pelo enfraquecimento do poder e controle do
governo democrático.
Através
dos vários diálogos ao longo do texto, fora exposto esse confronto, em vários momentos
evidente, entre o pensamento pernicioso dos sofistas em contraposição ao
pensamento filosófico, que busca a verdade, ao contrário dos demais, que no uso
da retórica, visam enganar o povo com discursos demagógicos largamente afastados
do interesse geral.
Nesse
processo, Sócrates, descreve seu Estado ideal de forma que ele contraste com o
Estado ateniense, tanto na forma da política desastrosa que levara Atenas à
guerra do Peloponeso e à derrota por Esparta – e sua sujeição à tirania dos Trinta
– quanto aos hábitos culturais, artísticos e educacionais que permitiram o
desgaste das virtudes e a prática da injustiça. Neste sentido é que se descreve
a reforma da educação das crianças, processo pelo qual se fomentaria, e
filtraria, os potenciais de cada um; depois os destinaria para uma educação
mais específica e posteriormente às suas respectivas funções sociais.
Para
compreender os argumentos que fundam a felicidade grega é preciso ter por base
o conceito de eudaimonia: felicidade imanente
da atuação nas aptidões naturais, distribuídas pela ordem cósmica. Nessa mesma
lógica se situa a tripartição axiológica da alma, e a necessária sujeição das
partes concupiscíveis à racional para que se dê a harmonia, a beleza, a justiça
e a felicidade do homem. Similarmente no Estado, há a tripartição social, na
qual o governo cabe aos reis-filósofos, a defesa aos guerreiros e no nível mais
baixo, o povo em geral – composto por artesãos e agricultores que alimentam a
si e aos guardiões. Em cada nível haveria de se ocupar aquele que tinha aptidão
para tal.
Posto
isto, verifica-se que a felicidade do homem – e a justiça - assim como a do Estado,
está diretamente associada ao cumprimento da ordenação cósmica, da harmonização
dos diferentes aspectos dos indivíduos enquanto realizadores das suas aptidões.
É neste sentido que se afirma que eudaimonia
e justiça são correlatas. O homem, e o Estado, só são felizes na justiça; em
vida e em morte o justo suplanta o injusto, como é relatado no último livro, em
que a ascensão ao “céu” só se dá para aqueles que foram justos e virtuosos em
vida, assim como nos ciclos de reencarnação, aqueles que foram regidos pela razão,
pelas virtudes e pela justiça, estarão mais aptos para escolherem as melhores
vidas a serem vividas e menos suscetíveis a beberem do rio, Letes, do
esquecimento.
Na
República de Platão o Estado não é estratificado pela força mundana, mas ao
contrário, sua realização ideal se dá pelo cumprimento daquilo que cada um faz
de melhor. Há quem nasça para filosofar, para guerrear e para produzir; e
somente a plena realização daquilo que nasceu para fazer permite ao Estado seu desenvolvimento
máximo. Ao fazê-lo, significa que na alma desses homens impera a harmonia entre
suas partes, o contrário sugere um espírito degenerado suscetível à injustiça,
aos vícios e tristeza.
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