Resenha: O 18 Brumário de Luís Bonaparte
Introdução
A
Obra “18 Brumário[1] de
Luís Bonaparte”, de Marx, abarca o período que vai de 1848 a 1851, qual
apresenta a ascensão da burguesia com a queda do rei Luís Felipe, a mudança de
postura da mesma com aquela classe cujo auxílio se fizera indispensável no
processo revolucionário, e finda com a assunção, como imperador, de Luís
Bonaparte. Durante esse processo, estratagemas políticos e belicosos permearam
os acontecimentos, quais, mais de uma vez se repetiram, e conforme comenta
Marx: “em alguma passagem de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes
fatos e todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por
assim dizer, duas vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira como
tragédia, a segunda como farsa”.
Significa
que uma vez na história os acontecimentos são originais, resultados da
convergência sócio histórica, dotados de autenticidade; a segunda vez é mera
encenação, uma teatralidade que se apropria das vestimentas de revoluções
passadas para dar-lhes legitimidade; especialmente nas ações da burguesia: “foi
nas tradições de rigor clássico da República Romana que os seus gladiadores
encontraram os ideais e as formas artísticas, as auto ilusões de que ela
precisava para ocultar de si mesma a limitação burguesa do conteúdo de suas
lutas, e manter o entusiasmo no mesmo nível elevando das grandes tragédias
históricas”. Se a burguesia demonstra-se abertamente quais eram suas intenções,
jamais conseguiriam ajuda contra a nobreza, por isso fantasiaram seus
interesses exclusivos como interesse coletivo e ludibriaram as massas até o
momento em que a ameaça democrática se fez patente.
O
ano de 1848 foi marcado por subsequentes revoluções, A Primavera dos Povos[2], ascendera
os revolucionários ao governo provisório, que lentamente tomava características
conservadoras[3];
esse desvio de conduta culminara com as Jornadas
de Junho, insurreições nas quais inúmeros trabalhadores em protesto
exigindo que suas demandas fossem atendidas, foram massacrados – cerca de três
mil mortos e quinze mil deportados – pela burguesia reacionária que se aliara
aos antigos representantes da aristocracia. Três anos depois, em um processo no
qual conflitaram interesses de Bonaparte, da burguesia e da aristocracia
remanescente, dera-se o golpe que instalara o novo imperialismo sob Luís
Bonaparte. Isto posto, é possível distinguir claramente três períodos
principais: o período de fevereiro, ou do governo provisório; 04 de maio de 1848
a 28 de maio de 1849, ou período da constituição da Republica, ou ainda da Assembleia
Constituinte; 28 de maio de 1849 à 02 de dezembro de 1851; período da República
constitucional ou da Assembleia Nacional Legislativa.
O Período de
Fevereiro – Do Governo Provisório
A republica social
apareceu como fraseologia, como profecia no limiar da Revolução de fevereiro.
No mês de junho de 1848, ela foi apagada no sangue do proletariado parisiense,
mas rondou os atos seguintes do drama como um espectro.
Derrubada a monarquia do rei Luís Felipe[4] em
fevereiro de 1848, dá se o período do governo provisório que em si não tinha
nenhuma característica específica nem na forma, essência ou interesse. Porém,
como todos os despojos de guerra, há sempre o momento da divisão da qual o leão
exige a sua parte[5], e deste momento em diante
realinharam-se as peças no tabuleiro:
Enquanto o proletariado parisiense ainda
se comprazia na contemplação da ampla perspectiva que se lhe descortinara e se
entregava a discussões bem-intencionadas sobre os problemas sociais, os velhos
poderes da sociedade se reagruparam, reuniram-se ponderaram e receberam apoio
inesperado da massa da nação dos camponeses e pequeno-burgueses, os quais se
lançaram todos de uma só vez á arena política após a queda das barreiras da
Monarquia de Julho. (MARX, Karl, 18 de Brumário de Luís
Bonaparte).
O movimento de reação da burguesia, e o
aparecimento de outros grupos e interesses não passou despercebido, tanto que a
Assembleia Constituinte que se desenhara pretendia circunscrever os interesses
de governabilidade à burguesia, pretendendo suprimir o movimento revolucionário
remanescente. “A resposta do proletariado parisiense a essa declaração da
Assembleia Nacional Constituinte foi a Insurreição de Junho” na qual foram
mortos mais de 3 mil insurgentes e 15 mil foram deportados. A Insurreição fora
um importante, pois “havia revelado que, nesse caso, a república burguesa
representava o despotismo irrestrito de uma classe sobre outras classes”.
Período da
Assembleia Constituinte – 04 de maio de 1848 a 28 de maio de 1849.
Anuncia-se a república democrática. Esta
se desmancha no ar em 13 de junho de 1949 com a fuga dos seus pequenos
burgueses, que ao fugir redobram os reclames a seu favor.
Um agrupamento nomeado Partido da Ordem
se compunha de vários interesses, mas de modo geral, se colocara contra o
proletariado. Havia uma facção burguesa, antirrepublicana, sob a égide de Luís
Felipe, qual “não se tratava da burguesia unida por elevados interesses comuns
nem demarcada por condições peculiares de produção”, mas dedicadas a retornar à
monarquia. Outra parte chamada Montanha, qual se referia ao Partido-Social-Democrata,
detinha grande força dentro do Partido da Ordem, e vinha no interesse pela República.
Os Bourbons e os Orleans compunham outra parte do Partido da Ordem.
Apoiado pelas reações do campo contra as
cidades, Luís Bonaparte, aparece como candidato elegível; encontra apoio também
nas forças armas que estavam frustradas com o baixo reconhecimento diante da
estabilidade realizada em favor da constituição. Os representantes da monarquia
também viam nele uma chance de retornar ao antigo regime, e até o proletariado e
os pequeno-burgueses viam nele uma forma de acabar com aquela Assembleia
Nacional Constituinte que em nada os representava. Assim, em 10 de dezembro de
1848 é eleito como presidente da França, mas a Assembleia ainda permaneceria
por mais um tempo.
As disputas por representatividade entre
os partidos dentro da Assembleia, constantemente colocava Bonaparte em
situações de se posicionar, embora ele tentasse jogar sempre umas contra as
outras, de forma a enfraquecê-las. Novamente, os proletários são utilizados, e
a Montanha estabelece uma aliança com eles, aumentando sua representatividade
dentro da assembleia. Mas “o caráter da socialdemocracia se resumia aos
seguintes termos: reivindicavam-se instituições republicanas democráticas, não
como meio de suprimir dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas
como meio de atenuar a sua contradição e transformá-lo em harmonia”, o que
sugeria formas de mudança pelas vias democráticas.
Todas as vezes que o caminho da lei
possibilitara um risco ao domínio burguês, ele fora suprimido. No cenário de
disputas por hegemonia o Partido da Ordem realizara uma ação inconstitucional,
qual a Montanha, recriminando, pedira o impeachment de Bonaparte por suposto conluio.
Não só, também incitara ao proletariado à luta e fomentara um novo estado de
sítio[6]. Porém,
acossados pela guarda nacional, foram dispersos e exilados. Atitude a qual Marx
comenta da seguinte forma:
Se quisesse obter a vitória no
Parlamento, a Montanha não deveria ter chamado ás armas. Quando ela chamou às
armas no Parlamento, não deveria ter se comportando de modo parlamentar nas
ruas (...). Se a demonstração pacífica era séria, foi simplório não prever que
ela seria acolhida belicosamente. E a intenção era a luta armada real, foi uma
atitude original depor as armas com que ela deveria ser travada.
Quando se apresentara a necessidade do
cumprimento das ameaças, a pequena burguesia e seus lideres fraquejaram.
Alijado o Partido-Social-Democrata, se estabelecia como força imbatível o Partido
da Ordem, até que Bonaparte dissolvera ministérios significativos ao controle
destes e criasse outros que o favorecessem. O Partido-Social-Democrata vacilara
e o entusiasmo arrefecera; o sufrágio universal – mecanismo qual o proletariado
vinha encontrando formas de representação legal no âmbito político – em votação,
fora suprimido por intermédio do Partido da Ordem. “Assim que a crise revolucionária
foi superada e o sufrágio universal abolido, voltou a irromper a luta entre
Assembleia Nacional e Bonaparte”.
Período da
Assembleia Nacional Legislativa – 28 de maio de 1949 a 02 de dezembro de 1851.
Pelas mãos da burguesia, a república
parlamentar apodera-se de todo o cenário expandindo sua existência em toda a
sua amplitude, até que dia 02 de dezembro de 1851 a sepulta sob a gritaria angustiada
dos monarquistas coligados: ‘Viva a república’.
Tais conflitos internos não poderiam ser
expressos para toda a população, pois não interessa mais a mudança da ordem
social propriamente, mas trata-se apenas de uma disputa hegemônica no alto
escalão da sociedade. Evidente que até certo ponto esse cuidado fora tomado,
mudando drasticamente diante de um novo cenário:
A guerra entre os dois poderes foi
declarada abertamente, e travada abertamente, mas isso ocorreu só no momento em
que o Partido da Ordem perdera armas e soldados. Sem ministério, sem exército,
sem povo, sem opinião pública, deixando de ser a representação da nação
soberana desde a lei eleitoral de 31 de maio, sem olhos, sem ouvidos, sem
dentes, sem nada.
Centralizado o poder da Assembleia Nacional
Constituinte nas mãos de Bonaparte, ele inicia-se o período da Assembleia
Legislativa. Durante todo o período de 1849 à 1851, Bonaparte e o Parlamento,
especialmente o Partido da Ordem conflitaram interesses, e através de
estratagemas políticos tentaram se enganar, sobreporem-se uns aos outros. Mas
na ausência de ministérios, e no domínio das forças armadas, o Partido da Ordem
já não podia fazer frente à Bonaparte, tanto que se fez necessário aliarem-se à
Montanha em uma coalisão. Mas o excesso de divergência não permitiu
estabilidade, em que se deu a ruptura parlamentar da burguesia, da imprensa
burguesa com a massa burguesa.
Fragmentado, o Parlamento já não podia
mais representar nenhuma classe, condição da qual fez uso Bonaparte, dissolvendo
a Assembleia e instituindo-se, como fizera seu tio, como imperador. Aquilo que
a burguesia fizera com a revolução, exortando-a a calar-se, a aquietar-se, Bonaparte
fizera com ela. E aqueles que foram, inicialmente, um dos sustentáculos do
poder bonapartista, o campesinato, este fora substituído pela burocracia. Posterior
a esse fato, encontraram os camponeses outro reduto:
O interesse dos camponeses, portanto,
não se encontra mais como sob Napoleão, em consonância com interesses da
burguesia e do capital, mas em contradição com eles. Ou seja, eles descobrem o
seu aliado e líder natural no proletariado citadino, cuja missão é a subversão
da ordem burguesa.
Toda a “gestão” bonapartista estará repleta
de incongruências, conflitos, incompetência, má-fé, corrupção e incapacidade, o
que evidencia que seu império não seguirá com tranquilidade, fato que se
revelará com a Comuna de Paris duas décadas depois.
Bibliografia_______________
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (versão
kindle, não consegui estabelecer as referências de páginas com uma edição
impressa, mas as citações foram toras retiradas desta bibliografia)
[1] Brumário era o segundo
mês do Calendário Revolucionário Francês que esteve em vigor na França de 22 de setembro de 1792 a 31 de dezembro de 1805. O Brumário
correspondia geralmente ao período compreendido entre 22 de outubro e 20 de novembro do calendário gregoriano; recobrindo, aproximadamente, o período durante o qual o sol atravessa a constelação zodiacal de Escorpião. (Wikipedia)
[2]Referência às Revoluções que
eclodiram na França no ano de 1848 e colocaram fim ao reinado de Luís Felipe.
[3]As revoluções se fizeram com
apoio indispensável das massas, do proletariado e da pequena-burguesia, cujos
interesses, após aproximação da alta-burguesia com estratos aristocráticos
remanescentes, afastaram-se dos seus. (MARX, Karl, 18 de Brumário de Luís
Bonaparte).
[4] Foi
o Rei dos Franceses de 1830 até sua abdicação em 1848. Seu pai era Luís Filipe II, Duque de Orleans, que havia apoiado a Revolução Francesa e mesmo assim guilhotinado durante o Reino do Terror. Luís Filipe fugiu e passou 21 anos no exílio. Ele foi
declarado rei em 1830 depois de Carlos X ter sido
forçado a abdicar. Seu reino, conhecido como a Monarquia de Julho, foi dominada por ricos burgueses e vários ex-oficiais
napoleônicos. Ele seguiu políticas conservadoras a partir de 1840,
especialmente sob a influência de François Guizot. Luís Filipe promoveu uma amizade com o Reino Unido e apoiou uma expansão
colonial, notavelmente a Conquista francesa da Argélia. Sua popularidade diminuiu e ele foi forçado a abdicar em
fevereiro de 1848, vivendo o resto de sua vida em exílio no Reino Unido.
(Wikipédia)
[5]
Referência ao conceito “a parte do leão” que significa a maior e melhor parte
de qualquer coisa.
[6] O
primeiro fora justamente aquele que dera causa a eleição de Bonaparte; ou seja,
um conflito de interesses e o caos social.
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