Ideologia da Não-ideologia
Possuir uma ideologia se
tornou, em alguns casos, um grande problema, especialmente se ela representa um
enfrentamento daquela vigente. Donde emergem certos discursos pragmáticos,
distantes do pragmatismo[1],
mas sustentados por uma necessidade de resoluções imediatistas que se pautam na
conveniência e nas opiniões de que a ideologia é o problema.
Weber, na sua obra
Duas Vocações, pretende trabalhar essa questão especialmente no que toca ao cenário
acadêmico-universitário, dizendo que o professor e cientista devem se
fundamentas nos fatos objetivos e que “o verdadeiro professor
se impedirá de impor, do alto de sua cátedra, uma tomada de posição qualquer,
seja abertamente, seja por sugestão.” (WEBER, pag.39). Com isso pretendia
criticar as aspirações da ideologia fascista, latente nas universidades. Mas a perspectiva weberiana, qual se fundamenta em fatos objetivos
deixa uma lacuna: aquela em que fatos objetivos não são objetivos de fato.
A realidade objetiva, conforme Weber quer
apresentar se assemelha aquela em que Kant cria a dicotomia indivíduo-objeto,
como se fossem duas coisas separadas e a realidade existisse independente
daquele que a interpreta. Na perspectiva hegeliana essa objetividade perde
sentido diante da existência dada estritamente dentro da relação homem-mundo em que a realidade se
objetiva. Qualquer coisa que possa existir além-homem
apenas encontra sentido dentro da sua interpretação[2]. Portanto, nenhum fato é uma objetividade dada, mas representa um
conjunto fenomenológico[3] que contém em si um aglomerado de valores. Dizer que alguém deve se
fundar em fatos objetivos significa obliterar o conjunto de fatores que deram
causa a esse mesmo fato.
Não
apenas os fatos possuem uma substância que lhes dá causa e dotam de valores,
mas as próprias palavras às contêm. Palavras, imagens e fatos, todos representam
receptáculos de sentidos e valores que sempre buscam algum objetivo, seja ele
idôneo ou vil. Então, ainda que a crítica weberiana fizesse sentido quanto ao
discurso fascista nas cátedras alemãs, isso não anula – aliás, corrobora – o
fato de que a totalidade da realidade compreendida se sustenta em certos paradigmas[4].
Essas
formas de interpretação da realidade não nos são dada a priori; ainda que a unidade psíquica[5] possa ser um fato, isso se refere aos aparelhos e mecanismo biológicos
de recepção e transferência de impulsos, e na questão de todos serem iguais,
mas isto difere quanto o arcabouço informativo, que vai sendo construído ao
longo do processo de aprendizagem[6], ou seja, aquele que se dá na intrínseca relação com o mundo.
Apresentadas
as questões que versam sobre a construção do entendimento, e do significado dos
fatos, deve-se especular agora porque possuem estas definições em questão. Dito
de outra forma, por que as palavras, fatos e imagens possuem os valores que
possuem? Porque representam aquilo que foram determinadas para significar, onde
converge aquela noção de que “as ideias dominantes de cada época foram sempre
as ideias de sua classe dominante” (MARX, p. 86, 2015).
Quando
Weber criticava o uso das cátedras para a imposição dos discursos fascistas, e dizia que os professores e cientistas deveriam se ater as realidades de fato, ele
apenas substituía um discurso emitido por outro velado. Apenas criticava um
paradigma em detrimento de outro. O fato de o fascismo ser realmente criticável
não deve obliterar aquele de que o outro discurso também se sustenta em formas
de interpretar o mundo, e em função de não ser tão ruim quanto o primeiro, não
é necessariamente o melhor.
Todo
esse percurso teórico para repousar na conclusão de que: a ideologia da não-ideologia serve apenas para
sustentar aquela que está subjacente à ordem social vigente. Inseridos em um
modelo capitalista, fomentador do individualismo, do egoísmo, do hedonismo, e
de tantos outros “ismos” perniciosos, pode-se afirmar categoricamente que o
paradigma hegemônico é o da classe dominante, qual a maioria não faz parte.
O
discurso pragmático que sugere abnegar-se da ideologia pretende apenas
enfraquecer aquela que poderia fazer frente à dominante. Portanto, não tomar
partido significa justamente fazê-lo. A realidade está impregnada de ideologias,
da práxis-epistemológica à política, da práxis-produtiva às relações sociais.
Naqueles que a assumem e naqueles que as rechaçam.
Diante
do cenário de sempre haver aspectos ideológicos em cada ação, torna-se claro que o
melhor a ser feito é escolher aquele que pode fazer o melhor bem possível ao conjunto da humanidade.
BIBLIOGRAFIA________________
MARX,
Karl, ENGELS, Friedrich.
Manifesto do Partido Comunista, 3ed, São Paulo: EDIPRO, 2015.
WEBER,
Max. Duas Vocações – Política e Ciência.
[2] A
qual recorre aos sentidos e à razão para constituir um entendimento.
[3]
Conjunto de fenômenos quais abarcam: historicidade, espaço-geográfico, cultura,
[4]
Conjunto de ferramentas cognitivas quais se recorre para interpretar e entender
o mundo.
[5]
Condição da qual participa todo indivíduo da mesma espécie, em virtude da
constituição naturalmente igual dos corpos – naturalmente o corpo e o cérebro
funcionam de uma forma específica, então, mesmo indivíduos surgidos em partes
diferentes do planeta desenvolveriam as mesmas capacidades.
[6] Entendido
em amplo espectro: comportamento, relações sociais, conhecimento, etc.
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