A Vida de Boas



Franz Boas nasceu em 1858, na Vestfalia, em uma família judia. Sempre estimulado pelos pais, Boas desenvolvera-se com rapidez nos estudos. E já na universidade, experimentara os desgostos do antissemitismo. Em 1874 já fervilhavam as diferenças étnico-religiosas na Alemanha recentemente unificada. Crescido dentro de uma família herdeira dos princípios das revoluções de 1848, e esta, herdeira dos princípios da revolução francesa, com seus aspectos de liberdade, igualdade e fraternidade, esse ambiente hostil para com sua natureza judia contribuíra para com seu pensamento antirracista, que permearia toda sua léxis e sua práxis.
Uma das suas principais realizações o colocou antecipadamente na ordem do trabalho de campo[1], que em 1883 se deu na Ilha de Baffin onde, pretendendo um levantamento de características geográficas, acabou por realizar um trabalho etnográfico com os esquimós. Esse momento é de grande importância, pois o contraste do hábito daquele povo com o da sua própria cultura lhe revelara a perspectiva prepotente qual geralmente utiliza-se para avaliar outros povos. Ele se admira com a forma de vida coletivamente engajada e hospitaleira dos esquimós.
Outro trabalho de envergadura, se dá em 1889, com as tribos do Norte da Costa do Pacífico, especialmente a tribo Kwakiutl. Boas coletara vários dados etnográficos, sendo os mais importantes sobre a língua e a arte; elementos manifestos em importantes eventos como o sistema de troca e prática ritualística chamada Potlatch.
Foi nos Estados Unidos que ele encontrou um ambiente mais promissor e liberal para desenvolver seus estudos. Seus trabalhos, dando primazia à cultura em detrimento da biologia, eliminando a justificativa da superposição social – pautados na hipótese de indivíduos biologicamente melhores do que outros – não agradaram os grupos conservadores de direita e aqueles adeptos da eugenia, especialmente futuros representantes do nazismo. Também foi nos Estados Unidos que ele encontrou ambiente etnográfico propício para seu trabalho, visto o movimento de imigrantes de várias culturas diferentes. Ao mesmo tempo, colocara-se sempre contrário aos aspectos racistas das avaliações impostas aos grupos, com fito a permitir ou não a entrada, ou o destino para alguns tipos de funções:
Nas inúmeras reflexões sobre as relações raciais na sociedade norte-americana envolvendo negros e brancos, Boas procurou contrarias as conclusões racistas de pesquisadores que efetuavam testes, seja para as agências governamentais dos Estados Unidos, seja para universidades e outras entidades” (MMM Arte, Língua e Cultura).
No que versa à teoria boasiana, ela se difere da evolucionista e da difusionista. Em muitos aspectos ele inovou a forma de pensar e abriu as possibilidades para a antropologia estruturalista com Levi-Strauss. A principal diferença com relação à primeira está no fato dele não aceitar o conceito de evolução histórica unilinear, cujas particularidades são suprimidas em benefício da trajetória total.
Para Boas, antes de supor que fenômenos aparentemente semelhantes pudessem se atribuídos às mesmas causas, como faziam os evolucionistas, era preciso perguntar, para cada caso, se eles não teriam se desenvolvido independentemente, ou se não teriam sido transmitidos de um povo a outro. (introdução à antropologia Kindle)
A antropologia evolucionista compara aspectos, que para Boas, não podem ser comparados sem a avaliação de como eles se constituíram; ou seja, é preciso verificar se os elementos são, de fato, comparáveis. E é nessa tarefa que se empenha Boas: encontrar na trajetória histórica as causas da manifestação cultural[2] e, cuidadosamente, estabelecer comparação pelas trajetórias, não pelas características culturais.
Com relação às teorias difusionistas, sua diferença reside no fato dele rejeitar a hipótese de que a difusão necessariamente sugere a supressão de uma cultura em função daquela que se torna proeminente, de forma que ele trabalha com o conceito de empréstimo, no qual aspectos culturais assimilados não apagam a cultura tradicional, mas coexiste com ela.
Portanto, é nestas perspectivas que a nova teoria emergente com Boas se difere: “enquanto, anteriormente, identidades ou similaridades culturais eram consideradas provas incontroversas de conexão histórica ou mesmo de origem comum, a nova escola se recusa a considera-las como tal, interpretando-as como resultado do funcionamento uniforme da mente humana” e “o objetivo da antropologia [...] deixava de ser a reconstituição do grande caminho da evolução cultural humana, e se tornava a compreensão de culturas particulares, em suas especificidades”. (CASTRO)
Boas constrói sua teoria sobre pilares sólidos, sendo o recurso da trajetória histórica do fato estudado um deles e o conceito de semelhança dos processos mentais o outro. É dai que nasce aquele entendimento de culturas; os processos mentais semelhantes sustentam uma forma semelhante de construção cognitiva, o que leva a uma noção de elementos universais, como Linguística e Cultura, dos quais as línguas e culturas constroem suas especificidades mediante as experiências materiais, históricas, sociológicas e culturais. Portanto, “na visão de Boas o universal [porque é comum a todos] é a comprovação de um processo que ocorre no cérebro humano como sede de operações cognitivas, que fazem parte dele como dado biológico, mas dado biológico hominídeo, capaz de fornecer instrumentos de apreensão da cultura já criada e geração de cultura como movimento criador” [inserção minha] (MMM, Arte, Língua e Cultura), o que, em suma, significa que o particular só pode ser compreendido no plural.
Deve-se ter sempre em mente que nenhuma força externa ou interna tem exclusiva capacidade determinista sobre as funções fisiológicas, mentais ou estruturais sobre o corpo e a mente humana. Logo, não é possível atribuir as formas do corpo somente às questões genéticas. Em obras posteriores, de geógrafos importantes como Maxmilien Sorre, notam-se a mesma perspectiva: em seu texto “Os Fundamentos Biológicos da Geografia Humana”, ele aponta as influências do clima, das disposições alimentares, e dos fatores patológicos, sobre as constituições genética, fisiológica e mental do homem; isto é, elenca uma concatenação de fatores internos e externos que são responsáveis pela forma como cada povo se dispersou pelo mundo, assim como pelas manifestações culturais, linguistas e pelos tipos físico-mentais.
Uma ressalva importante, Boas diz que tipo físico, língua e cultura não estão necessariamente amarradas umas nas outras. Onde ele vai trabalhar as influências do meio sobre as variações morfológicas, linguísticas e culturais independentemente. Por exemplo, o negro norte-americano que é africano na compleição física, mas europeu quanto à língua e a cultura[3]. O argumento quanto à artificialidade desse fato não nega necessariamente que ele tenha se dado naturalmente em alguns momentos históricos, em outros pontos geográficos, mas de forma similar: “a história da Europa Medieval ensina, todavia, que muitas vezes aconteceram amplas mudanças no idioma e na cultura, sem mudanças correspondentes no sangue”. (BOAS, Raça, Língua e Cultura, p. 105).
Não somente sobre as inter-relações culturais versa a antropologia boasiana, mas também sobre as representações mentais, observadas na arte primitiva e tribal. Segundo Marcio Mauss[4], o trabalho de Boas trouxe a questão das “sucessivas reencarnações das almas titulares, sucessivas possessões pelos espíritos titulares, os quais os nobres kwakiutl em particular são obrigados a alcançar para manterem o lugar deles, até que como todos nós sejamos afetados” (MOURA). Lembrando, talvez, aquela questão da contiguidade-similaridade para fazer jus ao cargo, função ou título (FRAZER). A arte, portanto, é “a reapresentação do sentido pela via do sentimento” (MOURA); é um dos domínios mais eminentes da humanidade como expressão que auxilia no entendimento dos dois princípios básicos já citados: o da semelhança fundamental nos processos mentais, e a percepção dos fenômenos culturais como produto histórico.
Para alguns estudiosos a interpretação primitiva da magia e da arte repousa naquela percepção pré-logica, na qual elas aparecem como continuidade da realidade; mas para Boas, a arte nasce de “uma reação do cérebro a uma forma; forma essa que assume um valor estético” (MOURA. Arte, Língua e Cultura). Este valor está relacionado com a técnica do seu processo, quando esta atinge um padrão de excelência: “o julgamento da perfeição da forma técnica é essencialmente um julgamento estético” (Idem). Essa formalização da arte enquanto manifestação da práxis técnica encontra seu reduto também nos processos mentais semelhantes, pois em todas as culturas a arte tem justamente esse fundamento.
Somado ao valor estético da técnica – o reconhecimento é bom, mas o sentimento de ter criado algo é mais estimado do que o primeiro – há outra particularidade da arte: ela coloca o indivíduo, também, como protagonista da transformação histórico-cultural em função da sua capacidade criadora[5]; esta emerge do inconsciente enquanto variável constitutiva dos processos mentais. Nas palavras de Wilhelm Wundt[6], quais Boas endossa: “a arte é um dos modos pelos quais o modelo inconsciente pode se manifestar, pode ser trazido à luz do dia, pela exegese da sua gramatica” (MOURA. Arte, Língua e Cultura).
O que foi dito até aqui se refere à forma, agora quanto ao conteúdo da arte, ele é a convergência daquela miscelânea que dá forma a sociedade da qual a própria arte emerge e se manifesta. “Ambos, o elemento forma, e o elemento de conteúdo, se entrelaçam abrindo caminho para o entendimento do estilo e do simbolismo em arte” (Idem). Essa manifestação possibilita avaliar a sociedade que lhe da causa: suas formas de pensar e sentir, tanto no sentido de preservá-la como de transformá-la[7].
Então, os elementos que dão à arte sua proeminência residem no “controle completo dos processos técnicos e virtuosismo [que] são qualidades que nascem primeiramente de técnicas corporais, tanto quanto de fatos fisiológicos [...] e em segundo lugar, de vibrações do espirito que transmitem excelência ao resultado obtido” (MOURA. Arte, Língua e Cultura) [inserção minha]. Mas não é somente técnica e vasão energética, mas há mais um elemento: a associação entre beleza e o bem, qual é explorada por Platão. Boas não pretende estabelecer inexorável ligação entre arte e beleza, mas como a citação mostra, esses elementos tendem a convergir: “no plano interpretativo, não há a ingênua intenção de estabelecer uma relação apriorística e supracultural entre as noções de arte e beleza [...] [Mas] no domínio da arte a produção de formas típicas, a reiteração, a reincidência e o reforço de traços semânticos ao longo do discurso ou presentes no objeto estarão imediatamente associados à ideai de beleza. Beleza que nasce porque há uma excitação do sentido provocado por uma forma, por um conteúdo, por um símbolo, e por um estilo” (MOURA. Arte, Língua e Cultura) [inserção minha].
Pautado naquela semelhança dos processos mentais ele conclui: “vimos que o desejo de expressão artística é universal” – ao contrário do sentimento moderno, onde o conforto deu lugar ao belo, nas tribos isso se inverte, assim como aquela noção grega de beleza, a qual os homens buscam, pois se identifica com o bem.
O que reforça esse aspecto da busca artística é o fato de haver pouca diferenciação quanto aos objetos de uso cotidiano e os objetos artísticos quanto às formas de produção, ao empenho dedicado e às técnicas utilizadas: “nessas sociedades a maior parte dos objetos de uso diário deve ser considerado obras de arte” (MOURA. Arte, Língua e Cultura). O produto, utensílio ou arte, possui um valor qual não é indiferente, como num processo produtivo seriado; ele não é reificado, nem fetichizado, mas representa a manifestação de certa forma, certo estilo, que apreendi em si um valor pessoal (inconsciência) e coletivo (consciência).
O estilo supracitado tem uma finalidade que Boas chama de diacrítica, ou seja, aquilo que estabelece uma ligação estreita com aquele grupo que cria tal estilo, uma característica inerente à determinada cultura: “enquanto a noção de padrão evoca a permanência histórica, a noção de estilo evoca a permanência da essência mais profunda”, isto é, “o estilo pode ser definido como um processo técnico e formal que determinada cultura consagra por meio de sinais diacríticos que são exclusivos”, então “a permanência do estilo tem que ver com a tradição, mas a resistência à mudança com o conservadorismo”. (MOURA. Arte, Língua e Cultura).
Por essa perspectiva de permanência e transformação, a teoria de Boas constata – ou pelo menos tenta – justamente esses processos através da arte e demais aspectos da cultura, conforme se percebe pela passagem abaixo:
A dinâmica cultural boasiana observa o movimento histórico, enxerga o fluxo constante, que hora se refreia hora se expande, em transformações ora rápidas, ora lentas, fluxo nas quais certas características culturais vivem e outras morrem, em que a integração dos elementos culturais pode mostrar-se fortemente agregada, mas também apresentar-se em estado de dissolução. (MOURA. Arte, Língua e Cultura)
O aspecto linguístico emerge da mesma fonte, isto é, da semelhança quanto aos processos mentais, e dos processos históricos quais estão inseridos os indivíduos, e ela é elemento indispensável para a interpretação da arte, pois é ela quem abarca o escopo qual a semântica recorrerá para retirar suas interpretações, é por isso que “a capacidade da arte de ser um sistema de comunicação semiótica dá seu primeiro e decisivo passo na análise boasiana” (MOURA. Arte, Língua e Cultura).
O fato da “linguagem” despertar menos furor investigativo que outros aspectos culturais se deve ao seu caráter naturalmente dado, ou seja, é uma habilidade tão introjetada que raramente se questiona como ela veio a termo, ou quais suas fundações [8], além de outro fator: “parece que a diferença essencial entre os fenômenos linguísticos e outros fenômenos etnológicos é que as classificações linguísticas nunca se elevam à consciência, ao passo que outros fenômenos etnológicos, conquanto prevaleça a mesma origem inconsciente, frequentemente se elevam à consciência e assim dão origem à uma explicação secundária e a reinterpretações” (MOURA. Arte, Língua e Cultura).
Percebe-se, portanto, que o escopo da teoria de Boas abrange aspectos muito além dos etnográficos, versando sobre a cultura, a linguagem, a fisiologia, os processos mentais, os hábitos, e por fim, a arte. A compreensão do seu raciocínio fomenta a perspectiva ampliada, aquela qual permite aos indivíduos não apenas entender outra cultura por um viés traduzido, mas pelo viés da participação[9].



BIBLIOGRAFIA

CASTRO, Celso. Franz Boas e o Novo Método da Antropologia. In: Textos Básicos de Antropologia. Cem Anos de Tradição: Boas, Malinowski, Levi-Strauss e outros. Rio de Janeiro: Zahar. 2016
MOURA, Maria Margarida. Arte, Língua e Cultura, pp 291-356.
MOURA, Maria Margarida. Franz Boas. A Antropologia Cultural em Seu Nascimento, pp.124-134.
BOAS, Franz. Raça, Língua e Cultura. In: Antropologia Cultural, pp 67-86.
SORRE, Maxmilien. Os Fundamentos Biológicos da Geografia Humana.

LINKS
https://pt.wikipedia.org/wiki/Wilhelm_Wundt
https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcel_Mauss



[1] Fato ocorrido antes mesmo de Malinowski, em suas obras, salientar a importância do trabalho de campo.
[2] Esse trabalho se realiza isolando as características culturais e classificando-as e às suas causas também.
[3] Quaisquer sobrevivências linguístico-culturais não fazem frente àquela imposta pela maioria. Também é notório que a cultura do negro norte-americano foi-lhe subtraída, esmagada e obliterada.
[4] Marcel Mauss (1872 - 1950) foi um sociólogo e antropólogo francês, sobrinho Émile Durkheim, qual aos trabalhos deu seguimento. É considerado como o "pai" da antropologia francesa (WIKIPÉDIA).
[5] Condição inexistente na ordem da antropologia evolucionista, que registra os movimentos totais, não os particulares.
[6] Wilhelm Maximilian Wundt (1832 - 1920) foi um médicofilósofo e psicólogo alemão. É considerado um dos fundadores da psicologia experimental junto com Ernst Heinrich Weber (1795-1878) e Gustav Theodor Fechner (1801-1889) (WIKIPÉDIA).
[7] Pensando no sentido da arte conservadora, voltada para a satisfação dos sentidos, e na arte revolucionária, que vem para subvertes uma ordem social.
[8] Boas também remete a origem da linguagem ao mesmo princípio de semelhança dos processos mentas e à trajetória história
[9] A tradução implica dar à palavra traduzida o valor simbólico do receptor, o que não permite plena ciência do significado dela na sociedade de origem. Compreender pela participação, significa usar do paradigma e dos arquétipos daquele povo para realizar a interpretação.

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