Uma Ressalva à Meritocracia



É em um quadro relacional que a existência se manifesta, a inteligibilidade se objetiva e o conhecimento torna-se possível. Cada coisa se singulariza na contraposição do que ela não é; ser algo é não-ser nenhum outro. Não há realidade a priori, ou se há deve ser ininteligível à humanidade incapaz de desenredar-se da sujeição relacional.
Isso não pretende negar uma essência, apenas demonstrar que ela está delimitada pela experiência material-simbólica[1] humana. Quanto mais alargada for a perspectiva do indivíduo, ou seja quanto maior for a compreensão do outro dentro da realidade, pelos parâmetros e pelos valores do outro, maior potencial será realizado, e mais nítida tornar-se-á a realidade.
Assim, da mesma forma que se concilia a igualdade humana, na sua potencialidade do ser, com o determinismo da experiência material, constituído nas relações, pode-se conciliar também a meritocracia[2] com o determinismo dos processos sociológicos: assumindo que as características do indivíduo, as quais o mesmo mobiliza para realizar suas ações e superações, não lhe são inatas, mas constituídas e contextualizadas pela sua trajetória histórica.
Aliás, a própria individualidade, qual cada um, de fato, possui, é um produto que se objetiva na existência. Até onde se sabe, e se observa normalmente, ninguém pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, nem duas coisas ocupando o mesmo lugar no espaço simultaneamente; a partir disto pode-se dizer que cada indivíduo tem uma experiência única (espacial e temporal) na qual se constitui e manifesta sua realidade. Essa é a singularidade perfeita, e continua única e exclusiva, pelo motivo já citado; ou seja, toda a trajetória de vida de cada ser humano sobre a face da terra é uma existência única.
Há quem diga que isso gere um problema quanto às infinitas possibilidades de realidades, porém, isso é refutável em função da essência do ser – que é igual em todos, na sua forma potencial – e pela similaridade das experiências – intercaladas por algo menor do que segundos – além da racionalidade que permite, através do conhecimento, alargar as perspectivas e, assim, compartilhar da mesma realidade do outro.
Retomando o tema principal, a meritocracia, pelo que foi dito acima, pode-se afirmar, que é justa sua manifestação, que o sucesso dos indivíduos, e seus insucessos são produtos da ação individual ou falta dela. Mas, ao mesmo tempo, as características que permitem ao mesmo realizar, ou não, essas ações, não lhe são inatas, mas são um produto do processo sociológico, qual traz eu seu bojo anos de transformação histórica, social, política, econômica e cultural.
Portanto, o mérito do sucesso ou o demérito do fracasso, ainda que de imediato repousem no próprio indivíduo, lhe são injustamente atribuídos, pois todo o aparato intelectual, psicológico e material que possibilita, ou não, a objetivação do self-made man, não lhe pertence de forma natural, mas lhe é dado pelo acaso.
Muitos que se atribuem a exclusividade no próprio sucesso não percebem a sorte que o acaso lhes dotara ao nascerem: do gênero “certo”, da cor “certa”, na família “certa” [3], em sociedades nas quais a trajetória histórica revela a não superação das desigualdades e preconceitos, pior, os ocultara sob uma manta que, volta e meia, se descobre e mostra a cara.
O problema, portanto, não é o acaso – este inexoravelmente ligado à existência e singularidade de cada um – mas as diferenças sociais que tornam o cenário, desmesuradamente, desigual a ponto de que cada nascimento configure um azar ou uma sorte para aquele que nasça. Isso evidencia o engodo contido no discurso vigente sobre a meritocracia, que fomenta um individualismo inexistente[4] e desnorteia quanto à problemática principal: quais as forças e interesses por trás desse discurso?
Genealogia demasiado longa e complexa que demanda um conjunto de conhecimentos ainda fora do escopo deste que vos escreve; mas, como nos mostra a filosofia, importam mais as perguntas do que as respostas, e creio tratar-se de uma boa pergunta.



[1] Material-simbólica porque inclui todos os fatores que constituem a experiência humana: cultura, ideologia, religião, trabalho, relações sociais, etc.
[2] Conceito que associa o sucesso obtido e a superação das dificuldades estritamente ao esforço individual.
[3] O conceito de “certo” foi usado aqui com sarcasmo, isto é, na perspectiva de uma sociedade preconceituosa com gênero, classe, cor, etnia, regionalidade, é sorte demais ser homem, heterossexual, branco e com dinheiro.
[4] Esse discurso atribui características inatas ao indivíduo e contribuem com a segregação, com a concorrência e com o encurtamento da perspectiva, ao contrário de mostrar que essas características são resultado dos processos sociológicos.

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