Dos Pré-Socráticos a Platão: Ruptura, Caos e Nascimento




- Introdução -
Quando se pensa em filosofia logo vem à mente: democracia, razão, Atenas, Sócrates, Platão, Aristóteles, entre outros nomes típicos, mas diferentemente sua essência não nasce de um ateniense. Tanto sua práxis quanto seu termo[1] tem origem fora de Atenas, todavia é nela que nasce o primeiro filósofo – Sócrates. O texto apresentará, portanto, a trajetória da filosofia, do século VI a.C. ao século IV a.C. trazendo uma explanação do que foram, o que fizeram e o significado desses feitos, na esfera do conhecimento, da política e da sociedade. Serão abordados os pré-socráticos, os sofistas e Sócrates e Platão.
Ainda que não se possa datar o início do uso da razão propriamente, sem incorrer em abordagens metafísicas, posto que não seja possível saber quando o homem passou a utilizá-la (perspectiva historicista), ou se sempre o fizera (perspectiva essencialista), enquanto sistemas de raciocínios ela é “o determinante de modos de conhecimento inscritos em práticas sociais” (WOLFF, p.72), portanto, pode-se estimar uma data, enquanto tal, do seu surgimento. Esse período encontra-se naquilo que ficou conhecido como a “passagem do mito à razão” [2], em que os valores e a legitimidade da tradição, representados pelos “Mestres da Verdade” [3] enquanto fornecedores de respostas, deixaram de ser satisfatórias.
É evidente que essa sistematização não se deu ex nihilo, ou seja, a partir do nada, mas representa o resultado de uma conjugação de fatores e transformações sociais, econômicas e políticas. O florescimento de uma certa região da Grécia, a Jônia, serviu de morada para os primeiros filósofos que ficaram conhecidos como os pré-socráticos[4]. O comércio com a região do oriente, com turcos e egípcios, possibilitaram além de trocas comerciais, também de informação e conhecimento, de forma que servira como elemento quantitativo na equação geral da transformação social, que, importante dizer, jamais parou no tempo, mas sempre determinou, determina e determinará parte – senão todas – das variáveis constitutivas da vida humana.
- Os Pré-Socráticos e sua Ruptura com o Arcaico -
A abordagem epistemológica[5] dos pré-socráticos e dos sofistas se distanciava da dos mestres da verdade na medida em que, os primeiros (quais serão abordados neste tópico) mesmo não pretendendo negar aquelas Verdades, buscava outras formas de compreender o que elas apresentavam enquanto tal, sem recorrer aos princípios divinos; enfim, buscavam respostas e, não só, eles “apresentavam razões para suas opiniões e argumentos em favor de suas doutrinas” (BARNES, p.27) que satisfizessem as ânsias e inquietações do homem, aliás, afirmadas por Aristóteles como apetites naturais pelo saber, em função do prazer pela contemplação.
A organização cósmica, aliás, uma redundância como se perceberá mais a frente, servira de argumento básico para a busca de princípios racionais, pois se algo é organizado, harmonioso ele necessariamente segue regras de funcionamento racionais, quais os pré-socráticos acreditavam poder descobrir através das observações dos fenômenos naturais, então “de modo geral, o empenho dos primeiros filósofos era no sentido de revelar toda a verdade ‘sobre a natureza’: descrever, organizar e explicar o universo e todos os seus componentes” (BARNES, p.14) de forma que se poderiam chamar seus princípios analíticos de fenomênicos. Não é a toa que Aristóteles os nomeara como physikoi, pois eles buscaram na física dos fenômenos naturais as explicações possíveis para as dúvidas frequentes[6].
Outros elementos significativos, quanto a sua ruptura com o modelo tradicional de explicação do cosmos, são as estruturas e essência dos argumentos. Como dito, para eles “o mundo obedece a uma ordem sem ser governada pelo divino. [Portanto] sua ordem é intrínseca: os princípios internos da natureza são suficientes para explicar-lhe a estrutura e a história” [inserção minha] (Idem, p.18). Focados nessa perspectiva, eles desenvolveram explicações através de alguns termos: Kosmos, Physis, Lógos e Arché[7], que universalizavam o princípio racionalista. Esses termos, ou características necessárias, constituíram parte da sistematização do conhecimento pré-socrático.
Através deles, os pré-socráticos construíram suas teorias; Tales de Mileto, ao observar que a umidade estava presente nos elementos que crescem e desenvolvem, e na sua indispensabilidade para a manutenção da vida, desenvolveu a teoria de que o elemento fundamental do cosmos seria a água, que, aliás, sustentaria toda a terra. Assim, a água (arché) e o princípio fundador do universo (kosmos), que se organiza nas mais variadas formas físicas (physis) seguindo uma razão (lógos). Como já fora dito, os pré-socráticos não eram ateus, evidência que se revela em aspectos das suas teorias, Tales, por exemplo, funda o universo com a água como elemento essencial, mas um espirito, alma, ou mente, é quem mobiliza este elemento para tal fim; este que o faz, refere-se essencialmente a um deus.
A maior parte dos pré-socráticos remete a elementos básicos, uma espécie de “tabela periódica dos elementos” como fogo, água, ar e terra. Salvo Anaximandro, que se refere ao infinito (apeiron) como fonte do universo, posto que nada possa surgir do vazio, deve, portanto, surgir de algo; mas, primeiro, ele é uma exceção, e segundo isso não muda o fato dele também ater-se a mesma metodologia, buscando argumentos internos, pois a ideia de infinito utilizada não pretende o mesmo conceito moderno, nem uma noção de intervenção divina, mas sim uma lógica do que é indefinido[8], que explique o conjunto universal e ao mesmo tempo as particularidades. Anaxímenes, Anaxágoras, Heráclito[9] também recorrem àquela tabela periódica dos elementos para proporem suas teorias.
A outra parte da sistematização do conhecimento pré-socrático está justamente na estrutura. Percebe-se, como já fora dito, que todos eles buscam argumentação interna, em função da organicidade cósmica, ou seja, ainda que assumam a presença ou participação de uma divindade, ela não é responsável pela forma como as coisas se dão propriamente, mas, no máximo pelo “sopro de vida”, portanto, todo o funcionamento universal deve estar explicado pelas forças internas do próprio cosmos e presente nas suas leis naturais. Outra característica é o fato das suas teorias pressuporem um sistema que sirva não para um determinado fenômeno, mas para todos e para o todo. E por fim, uma tendência a buscar o elemento mais simples como o fundamental, sempre pensando naquela lógica de que as coisas vão do mais simples para o mais complexo. Em suma: origem e justificação interna, sistematização de um argumento universalista e princípio da economia através da lógica “do simples ao complexo”.
Os pré-socráticos representaram um dos polos do rompimento com a lógica arcaica dos “Mestres da Verdade”, ou seja, significando que na outra extremidade há outro rompimento, que surge com a emergência dos sofistas e um aprofundamento e diversificação da razão. As fontes da legitimidade dos discursos do Aedo, Adivinho e Rei de Justiça, se fundavam na tradição, em termos moderno deviam-se ao seu local de fala, nas justificativas mitológicas que lhes davam credibilidade (vide nota 2); com o passar do tempo, outras formas de pensar se manifestaram, questionando essa legitimidade e buscando desenvolver outras, como ocorreu na emergência dos sofistas[10].
- Os Sofistas e sua Ruptura com o Arcaico -
As comparações entre os discursos tornam a crítica e o rompimento bem demarcados; imediatamente se destaca o fato dos discursos arcaicos não serem puros, isto é, puramente discursivos, mas apresentavam-se como um “elemento de um dispositivo mais geral de enunciação, ato ritualizado, jamais separável do conjunto das circunstâncias formalizadas que o tornam possível e das marcas de distinção que assinalam seu poder de veracidade” (WOLFF, p70), ou seja, não era possível separar o discurso propriamente do momento e daquele que fala, e em função de uma legitimidade herdada pela tradição, é ouvido e aceito como verdade.
Pela comparação entre discurso clássico – emergindo com os sofistas – e arcaico – referente aos mestres da verdade – no que toca ao “próprio discurso verdadeiro” (Ibidem. p 70-1), o Poeta, em um ato ritualizado, narra heroísmos míticos e a fundação cósmica divinamente dada, quais só são aceitos como verdades em função da legitimidade daquele que narra; na forma clássica, ao contrário, a verdade do discurso está na essência do próprio e não naquele que emite o discurso. Pela comparação entre a “relação do discurso verdadeiro com o real” (Ibidem. p 70-1), o Adivinho não parte da realidade para sua previsão, mas de forma performativa, por uma indução, ele causa o que teria previsto; ao contrário, a forma clássica tem por referência a realidade imediata. E pela comparação que “diz respeito à relação do discurso verdadeiro com seu destinatário” (Ibidem. p 70-1), seja pela adivinhação ou pela sentença do Rei de Justiça, essa verdade se impõe aos indivíduos, ela independe da aceitação; contrariamente, a forma clássica que depende da aceitação do destinatário para configurar-se como verdadeira.
Essa nova forma de construção dos discursos, cuja legitimidade se daria não em função do emissor, mas baseada na própria mensagem, no fato dela se fundar nos fatos objetivos e, principalmente, depender de uma aceitação do destinatário enquanto verdade tornara-se possível em função de um conjunto de fatores, que, novamente se faz importante lembrar: as constantes mudanças sociais, econômicas e, principalmente, políticas; este elemento é de inexorável importância, pois foi uma condição característica que permitira a manifestação, em massa, das novas racionalidades.
Com as tentativas de democratização, desde Sólon até a Era de Ouro de Péricles, o cenário ateniense se transformara sobremaneira. A comercialização aumentara, os acordos entre Atenas e demais cidades vizinhas reforçaram a estabilidade e segurança delas, e uma variedade de pensadores de toda Grécia convergira para dentro das suas muralhas[11]. Os mais conhecidos, Górgias e Protágoras, tiveram grande influência sobre a vida cotidiana da cidade, e até mesmo sobre o próprio Péricles.
Como foi dito, a democracia estava em vigência, e sendo ela o regime do discurso por excelência, nada mais natural que institucionalizar essa característica, fato objetivado na Ágora ateniense. Essa condição possibilitara aos cidadãos um quadro de igual direito de manifestação (Isegoria), e a deliberação, individualmente dada, quanto à validade do argumento (Isocrítica), ou seja, a possibilidade de “jamais admitir como verdadeiro senão o que o outro a quem nos dirigimos admite como tal” assim como “reconhecer a qualquer outro o direito igual de ser esse interlocutor legítimo” (WOLFF, p.73-4).
Diante da ampliação do espectro da cidadania, e da emergência dos novos ricos, oriundos dos comerciantes, uma tensão entre a aristocracia tradicional e os recém-ascendidos, além dos interesses dos demais cidadãos recém-reconhecidos, agitava a cidade. Pautados nas Isegoria e Isocrítica, todos aqueles que eram cidadãos[12] recorriam à discussão pública em defesa dos seus interesses, e como nenhuma verdade teria maior validade do que a outra, a própria Verdade[13] deixara de ter relevância diante do convencimento de uma verdade qualquer, de forma que o discurso que tivesse maior Coerência[14] convenceria mais e seria o preferido.
Duas condições necessárias para a manifestação dos sofistas. Majoritariamente estrangeiros, não tinham direito de se manifestarem na Ágora, mas nada os impedia de instruir algum cidadão para que o fizesse. Com isto, cada vez mais esses indivíduos caíram nas graças do povo ateniense e proliferaram seus vários princípios da razão: “nesse contexto da nova configuração da vida política, é fundamental a formação dos jovens, que é promovida por filósofos ou sofistas” (MARQUES, p.24); a notória frase de Protágoras se encaixa perfeitamente neste período; aquela em que ele afirma que “o homem é a medida de todas as coisas” (151E-152A, Teeteto, apud MARQUES, p.31) delineia claramente o fundamento da erística, da retórica: o princípio de ganhar uma discussão, não importando se é justo ou não, verdade ou não, permeia toda a essência da sofística.
Há uma perspectiva menos agressiva, talvez até mais justa, quanto aos sofistas, que é o reconhecimento significativo da dimensão política dos seus discursos, pois rompe com a lógica da natureza (physis), e dá forma ao que é convencional, a lei (nómos).  O princípio da necessidade, que regira a sociedade até então dá lugar ao que é contingencial, ao que é propriamente humano. Ao mesmo tempo, no que toca a epistemologia, cujo reflexo na vida política é a mudança paradigmática, houve uma crise pautada justamente no fundamento dos seus discursos: a variedade de razões que são aceitas elimina também a própria lógica racional, isto é, “a crise da razão pôs assim em concorrência, desde o início, vários campos de racionalidade distintos. Jamais houve uma maneira de estabelecer racionalmente verdades, mas necessariamente várias”. (WOLFF, p.78).
- Consequências da Crise da Razão -
Diante desta crise identifica-se a total falta de referência para os valores, como justiça, virtude, beleza, bondade, etc. A episteme perdera lugar para a doxa[15], e os efeitos sociais, na visão de Platão, foram devastadores. Para este, a queda de Atenas para Esparta, e posteriormente a morte de Sócrates[16], foram produtos de uma  cidade sem valores e virtudes, apenas sustentada sobre frases de efeito emitidas por exímios manipuladores da Verdade, mas acima de tudo, essa crise seria fruto da democracia, que possibilitara a emergência desse tipo discursivo. A ironia é que fora essa mesma democracia que dera possibilidade para a filosofia emergir e se manifestar contra aquilo que lhe dera causa, o que já identifica sua importância ético-social e politica.
Como se disse no início, Sócrates foi o primeiro filósofo ateniense; ele nunca deixara a cidade, salvo para servir nas guerras, inclusive fora reconhecido por algumas façanhas ao longo das mesmas. Durante sua vida, no período da democracia ateniense, “em princípio, o que Sócrates faz é exercer o direito de todo cidadão; fala, discute, pergunta, argumenta” (SILVA, p.21), o que torna a sua condenação algo bastante singular e simbólico, ao mesmo tempo em que denota uma peculiaridade quanto a sua forma de dialogar.
Diferentemente dos sofistas, com suas antilogias[17], Sócrates não debatia colocando argumentos contrários, mas constantemente perguntava. Não eram questões aleatórias, mas que tentavam, através da eliminação das respostas falhas, alcançar uma resposta melhor. A sua consequente condenação e morte denotam que a maiêutica[18] socrática, tanto quanto a sofística, também possuíra uma dimensão política, epistemológica e social. A questão, portanto, está na forma como ele exercia seu direito democrático.
Tanto Sócrates, como Platão, retomam aquela perspectiva da physis, ou seja, dos princípios da natureza. Para eles as coisas não poderiam ser relativas, mas haveria valores absolutos, o que fica claro com a Teoria das Formas de Platão, em que ele demonstra que o mundo em que o homem vive é feito de imagens imperfeitas da realidade; as suas formas reais, ou seja, suas essências que fazem das coisas o que elas são de fato, somente são alcançadas pelo exercício da razão, somente pelo intelecto elas podem ser contempladas, e somente elas constituem o mundo real. Essa noção esteve subjacente em cada diálogo realizado por Sócrates, e contrasta totalmente com a visão relativista dos sofistas, que eram a ideia dominante no período.
É ai que se encontra a problemática. Ao longo das suas conversações, Sócrates expõe a fragilidade da argumentação sofista, demonstra para as pessoas treinadas naquela arte, que elas estão equivocadas, e pior ainda, sequer oferece uma resposta. Isso é importante, ele nunca disse que sabia de algo, salvo uma única coisa, “só sei que nada sei”, porém fora o que lhe permitira saber mais do que todos, reconhecido inclusive pelo Oráculo de Delfos[19].
Os fundamentos da própria democracia, que seriam a Isocrítica e Isegoria, estavam sendo atacados por aquela “inocente” conversação, que colocavam o emissor e a essência dos discursos em xeque. Essa é a dimensão política da práxis filosófica socrática:
Ao interrogar seus interlocutores acerca das suas opiniões, produz a dúvida sobre crenças que esses até então tinham por inquestionáveis, por as terem ouvido dos seus contemporâneos ou por terem recebido por tradição. Usando uma lógica implacável, destrói a consistência aparente de tudo que o outro pensa sem, no entanto, lhe dizer o que pensar (SILVA, p.22-3).
            Ainda que ele apenas fizesse o que lhe permitia a lei, ele perturbara a paz, e representara um perigo, por isso seu julgamento não fora normal, mas político. Também por isso, mesmo diante da sua apologia[20], que lhe isentaria se se estivesse tratando com aqueles que respeitam a Verdade, ele fora condenado a tomar a cicuta[21].
            Na esfera da epistemologia, a diferença está especialmente na Teoria das Formas, em seu princípio que, longe de ser dualístico ou ideológico, trata do mundo real, daquilo que constitui a essência própria das coisas que fazem delas o que elas são – e não suas imagens distorcidas e relativizadas. Por essa teoria Platão questiona o relativismo contrapondo a ele as formas perfeitas, não só dos objetos, mas dos valores e virtudes, de forma a evidenciar que a sofistica opera com imitações da Verdade, portanto enganam aqueles que delas se servem. E sendo ela o paradigma vigente na democracia, em função desta própria, por silogismo, a culpa recai sobre essa forma de governo, que dera condições desse pensamento surgir, se instaurar e permanecer.
- Conclusão -
Apresentaram-se os dois polos de superação e rompimento da tradição e do arcaísmo dos “Mestres da Verdade”, um pelo lado dos pré-socráticos e outro pelos sofistas, e de modo geral, a requisito principal para essa superação era a adesão a um princípio racionalista subjacente às formas de pensar e responder questões anteriormente respondidas pela legitimidade da tradição e pelas divindades. Assim como se evidenciara qual o elemento mínimo para a instituição de uma verdade, posto o descarte das legitimações tradicionais, a saber, o reconhecimento do destinatário.
Também fora exposto o resultado da ascensão dessa razão, ou melhor, dessas razões, como forma e conteúdo, em que várias formas racionais de explicar as coisas, coexistiram com plena aceitação mútua, o que evidentemente minou qualquer Verdade, Valor ou Virtude possível, ao mesmo tempo em que resultara na falência da instituição governamental, na perda da Guerra do Peloponeso, e na morte de um homem inocente.
E por fim, mostrou-se como se poderia superar essa crise, restituído a ordem natural, dando a physis seu devido lugar de primazia, e demonstrando que existem formas absolutas de todas as coisas, todos os valores e virtudes, de forma que elas não são inexistentes, e a busca delas só se faz possível pelo princípio da razão e do exercício da racionalidade, sem ela, esse conhecimento torna-se impossível e o indivíduo viverá sempre observando sobras na parece de uma caverna e tomando-as como a realidade.
Observada a trajetória epistemológica, pode-se proceder a um exercício analítico interessante: ao retomar Heráclito de Éfeso, e quem sabe relacionar com a teoria hegeliana, pode-se dizer que a existência está no conflito das particularidades, quais se findam no princípio da outra que nasce; é assim que a teoria arcaica dos mestres da verdade, quais se fiavam na physis, sede lugar às teorias pré-socráticas e sofísticas quais dão causa ao nómos, e essas, posteriormente, retornam a uma visão regida pelo princípio da necessidade da natureza com a filosofia socrática e platônica, porém, não mais na mesma acepção, mas em uma nova perspectiva, do que seja natureza. O movimento implícito não sugere apenas um pendulo, mas um caminhar evolutivo espiritual, em que cada percepção nova, ainda que retome uma antiga, está bem acima dela.



NOTAS


[1] O termo filósofo ainda não estava cunhado, portanto referia-se mais á uma práxis do que a uma adjetivação. O nome será cunhado por Pitágoras de Samos, quanto ele afirma que a sabedoria verdadeira é exclusiva dos deuses, mas o homem pode amar a sabedoria e deve buscá-la; amor, amizade (philos), sabedoria, conhecimento (sophia).
[2] Essa nomenclatura leva a uma ideia equivocada quanto à superação da mitologia. Na verdade houve uma coexistência entre as formas de pensamento; a emergência do princípio racionalista operava mediante aquilo que conseguia explicar, mas aquilo que não conseguia, pelas suas metodologias, atribuía-se outras explicações, geralmente mitológicas.
[3] Personagens cujas características lhes dotavam uma importante função social. Portadores e disseminadores da Verdade (alétheia – não como oposição a uma mentira, mas como um portador de valores suprassensíveis remetendo a essência, fonte ou princípio de todas as coisas). Seriam eles o Aedo, o Adivinho e o Rei de Justiça; os dois primeiros, em função da Memória (Mnemósis), trariam imagens e descrições relativas à existência, em que o Aedo, descrevendo os feitos heroicos dos homens em sua relação com os deuses “confere assim às ações humanas o brilho, a força vital e a continuidade do ser” (VERNANT, p.285), isto é, os eterniza e dá vida; e o Adivinho, não só faz previsões, mas dá causa aquilo que previra. O terceiro, o Rei de Justiça, carrega o estigma da escolha do que é justo, e o reproduz nos pronunciamentos ritualísticos, então, ao “apoiar-se em procedimentos ordálicos, o ‘dito’ do rei possui um valor oracular” (Ibid. 285-6). Toda legitimidade lhes era outorgada pela tradição, pelo simbolismo e reconhecimento que suas funções lhes legaram.
[4] Datado o mais antigo deles, por volta do século VI a.C, Thales de Mileto, teria previsto um eclipse já na sua época. Outros também foram figuras importantes, como Anaxímenes, Anaxágoras, Anaximandro, Empédocles, Heráclito e Parmênides, estes são os mais conhecidos cujos escritos se tornaram acessíveis em virtude dos trabalhos de Diels e Kranz e outros comentadores mais antigos como Sexto Empírico.
[5] Pode-se chama-las de uma teoria do conhecimento, pois justamente tratavam das novas formas de compreender a existência, explicá-la, e torná-la uma metodologia de avaliação dos demais eventos e fenômenos a serem explicados.
[6] Entende-se os pré-socráticos como os fundadores das ciências naturais; muito do que eles propuseram se reproduziram nas ciências modernas, como a física, a biologia, a química, etc.
[7] Kosmos remete à ordenação, arranjo, disposição, comando, mas tudo dotado de beleza, harmonia, portanto refere-se ao universo harmônico, “o cosmos é o universo, a totalidade das coisas. Mas é também o universo ordenado e o universo elegante” (BARNES, p21). Physis refere-se aos fenômenos naturais, separando o que pertence ao reino natural e ao artificial. Denota “algo da natureza de cada objeto natural: o termo physis designa não o cosmos como um todo, mas antes, um princípio existente em cada parte natural do cosmos” (Idem. P.21-2). Arché, termo de difícil tradução, denota um princípio fundamental que dá causa a própria natureza, como a água, em Tales. Lógos refere-se a varias coisas, dependendo também do filósofo em questão, mas significa geralmente: razão, discurso, condutor, método.
[8] Tudo aquilo que não é definido não contêm barreiras, delineamento ou limites, é, portanto, ilimitado e, por conseguinte, infinito.
[9] Anaxímenes designa seu elemento fundamental o ar, no qual sua compressão ou rarefação constituam os sólidos e os líquidos. Anaxágoras favorece uma combinação dos elementos. Heráclito propõe uma teoria que viria fundar a dialética em seu conceito próximo ao moderno, em que a existência se dá pelo conflito; para ele a existência seria o movimento contido na transformação dos elementos nos seus contrários, sendo que de um lado ele coloca o fogo e do outro ele coloca os outros três, água, ar e terra. A ordem cósmica, portanto, existe em função do caos, do conflito das partes, o fim e o começo no mesmo momento.
[10] “Os termos sábio (sófos) e sabedoria (sofia) se aplicavam, respectivamente, a alguém que detinha carta competência, em algum ramo de atividade, e a esse saber ou competência propriamente ditos” (MARQUES, p. 17), de forma que ambos estão conectados. Isto posto, pode-se dizer que a práxis e a léxis filosóficos estão alinhados com sua competência, algo que não ocorre com os sofistas, que segundo Platão, são imitadores da sabedoria. A sofística, portanto, é uma doutrina de vários pensadores que romperam com a tradição dos mestres da verdade, cujas teorias, porém, variam quanto as verdades apresentadas, justamente por sustentarem critérios de razão diferentes, contendo, todavia a mesma oposição ao arcaísmo, ou seja, usavam da razão como elemento fundamental da sua lógica.
[11] Péricles também pretendera reforçar a segurança de sua cidade construindo algumas muralhas ao redor dela.
[12] Em Atenas, era entendido como cidadão: homens nascidos de pais atenienses e que fossem livres. Mulheres, escravos e crianças estavam excluídos do conceito de cidadania, portanto do direito de participação nos debates públicos. Com a “reforma de Efialtes, que aboliu os níveis de renda estabelecidos por Sólon, passou a haver uma igualdade mais ampla quanto à participação dos cidadãos na vida política de Atenas. Péricles contribuiu neste sentido com a adoção de um tipo de salário público (misthoporía) que permitira aos cidadãos menos favorecidos exercer cargos políticos” (MARQUES, p.22).
[13] Entendida aqui nas duas acepções: Verdade como essência, e como oposição a uma mentira, conhecida por alguém em algum lugar como tal, mas obliterada diante do discurso da retórica.
[14] Coerência refere-se às técnicas argumentativas, com encadeamento lógico de argumentos, quais em si não possuem valor verdadeiro ou falso, mas o adquirem mediante a aceitação do destinatário como tais.
[15] Episteme refere-se aqui ao conjunto de conhecimentos verdadeiros, profundos, constituídos pelo exercício da racionalidade, em oposição à doxa, que remete à opinião comum.
[16] Sócrates não escrevera nada, portanto, qualquer referência a ele se faz por seus alunos, em especial Platão. Com isso torna-se dificultoso saber se o que o primeiro falou é propriamente seu ou se foi posto em sua boca pelo seu aluno. Dito isto,  o assunto apresentado aqui  será dado como se fossem um mesmo interlocutor.
[17] “Antilogia quer dizer contraposição de argumentos, um discurso formulado contra o outro” (MARQUES, p.25)
[18] A maiêutica está relacionada ao trabalho das parteiras; estas somente poderiam ser mulheres que não pudessem mais ter filhos; além disso, elas tinham uma função de filtragem dos bebês: aqueles que fossem defeituosos de alguma forma eram mortos. Com essa comparação, Sócrates se diz como uma parteira, mas das ideias; ele, estando velho, já não poderia ter ideias próprias, mas poderia ajudar os jovens a ter as suas, e ele, como as parteiras, descartaria aquelas ideais que fossem defeituosas.
[19] Uma vez perguntado por um indivíduo se Sócrates seria o homem mais sábio da Grécia o Oráculo respondera afirmativamente, o que o levara a buscar o significado dessa mensagem. Ao conversar com vários indivíduos tidos como sábios, ele percebe que todos eles, absolutamente, não sabem nada daquilo que dizem saber, mas também não sabem que não sabem; se Sócrates sabe justamente isso, que não sabe nada e que sabe que não sabe, ele torna-se mais sábio do que os demais.
[20] Apologia refere-se a defesa de uma ideia ou coisa.
[21] Uma bebida feita de plantas altamente venenosas e mortais.

Referências

VERNANT Jean-Pierre. Mestres da Verdade In. Entre Mitos e Política, São Paulo, Editora USP
SILVA, Franklin L. Sócrates: Uma vida sem exame não é digna.
BARNES, Jonathan. In. Filósofos Pré-Socráticos, São Paulo, Editora: Martins Fontes, 2003, (pp.09-27).
WOLFF, Francis. Nascimento da Razão, Origem da Crise. In. A Crise da Razão, Editora: Companhia das Letras.
MARQUES, Marcelo P. Os Sofistas: o saber em questão.
CORDERO, Néstor L. La invencion de la filosofia.

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