Resenha: A Assim Chamada Acumulação Primitiva.
Introdução
O
discurso da meritocracia é um dos pilares fundamentais da ordem social
capitalista; sua argamassa é composta por vários elementos, como a falsa
identificação de classe, a educação voltada somente aos desígnios
mercadológicos, estimulando pouco, ou nada, a análise critica da própria
realidade, a disputa entre Campos específicos e uma falsa moralidade. Estes, e
outros elementos, constituem, no inconsciente coletivo, a naturalização da
disposição axiológica da sociedade.
O
processo de habituação oblitera a percepção contingencial da realidade; as
pessoas não se perguntam o porquê das coisas serem como são. No dia-a-dia, poucos
são os indivíduos que se questionam quanto à disposição dos grupos
socioeconômicos, a distribuição das propriedades e sobre a práxis laboral
propriamente; quando o fazem de forma crítica, encontram na historicidade do
processo civilizatório os mecanismos de segregação e hierarquização social, os quais
a maioria não enxerga, embora, e em virtude disto, os reproduza.
Em
suma, a questão importante aqui é: de onde vem a riqueza e a pobreza? Quais as
origens da apropriação desigualmente dada, e como se dera a manutenção dela ao
longo dos anos. No capítulo XXIV da obra mais conhecida de Marx, O Capital,
chamado “A assim chamada acumulação primitiva”, o autor tece sua diagnose sócio
histórica, relatando como se constituíram os elementos necessários para a
acumulação capitalista. Esse capítulo versa sobre uma peculiaridade inglesa,
mas os princípios podem ser extrapolados para outros países da Europa, em que
se explicitem alguma forma de acumulação primitiva, como pelo colonialismo,
juros de empréstimos, exploração predatória de minérios, etc.
O
modelo de produção capitalista carece de requisitos mínimos, tais como fim da
servidão e escravidão (mão-de-obra livre), liberdade dos indivíduos, mas
principalmente a separação dos meios de produção e seus detentores, daqueles
que detém somente a sua força de trabalho, como diz Marx:
O
processo que cria a relação capitalista não pode ser senão o processo de
separação entre o trabalhador e a propriedade das condições de realização de
seu trabalho, processo que por um lado, transforma em capital os meios sociais
de subsistência e de produção e, por outro, converte os produtores diretos em
trabalhadores assalariados. (MARX)
Portanto,
o sistema capitalista de produção tem por excelência a separação entre aqueles
indivíduos que possuem, por um lado, as máquinas, as terras, os rios, os
recursos naturais e o capital e, por outro, aqueles indivíduos que não possuem
nada exceto sua força de trabalho. Tendo em vista estas características, a
proposta do texto de Marx é, pois, demonstrar quais os processos que criaram
essas condições mínimas do capital acumular-se.
Das Condições
Prévias[1]
Os
feudos inicialmente eram fechados em sua economia de subsistência, tendo pouca
margem para o comércio entre os feudos, especialmente em virtude da distancia
entre eles. Contra isto, um fator que, lenta e progressivamente, perpetrou os
primeiros passos nessa mudança foi o comerciante. Este, desejoso de ampliar sua
esfera de comércio, buscara realizações mais vantajosas em feudos vizinhos.
Conforme
isso se dava, pouco a pouco aquilo do que suas negociações necessitavam se
conjugavam: moedas aceitas entre feudos, expansão do leque comercial, logo,
produtivo e, com fins a facilitar quanto a distancia, o nascimento dos burgos.
Estes, geralmente escolhidos em pontos estratégicos, em encostas que lhes
dessem proteção, e em encruzilhadas, pela facilidade logística. Lê-se em Vilar
sobre os efeitos da ação desses comerciantes: “As trocas exteriores perturbam
este circuito, a circulação monetária desenvolve-se, a propriedade absoluta
progride diante da propriedade feudal, os homens livres são cada vez mais
numerosos que aqueles presos ao velho regime.” (VILAR). E sobre as mudanças
produtivas dentro do feudo: “Sua produção combinou-se com o crescimento da
produção local destinada ao mercado” (VILAR).
Com
a emergência dos burgos iniciara-se o latente conflito entre cidade e campo.
Lentamente as áreas urbanas ganharam evidência frente ao senhor feudal,
dando-lhes condições de exigirem medidas que fossem mais favoráveis aos
comerciantes. Somado a esse conflito entre campo e cidade, os burgos favorecem
demais efeitos, eles “tem uma influencia direta apreciável 1) pelo exemplo que
dão a muitas comunas rurais que também se libertam, 2) pelo asilo que oferecem
aos servos fugitivos, outra fonte de liberdade.” (VILAR).
Nesse
latente conflito, tanto como revés a essas crises como produto delas, dera-se o
desenvolvimento de algumas tecnologias: “foi precisamente ao longo da crise
geral do feudalismo que novas invenções vieram modificar o nível das forças de
produção” (VILAR); desenvolvimento de artilharia, alto forno, imprensa, fomento
às navegações, etc.
Esse
conjunto de transformações começou a ruir as bases do sistema feudal,
desestabilizar a economia fechada e movimentar massas de comerciantes e
manufatureiros contra o modelo vigente. É dentro deste processo de transição do
feudalismo ao capitalismo que começam a ser formar os elementos fundamentais da
acumulação capitalista, enquanto se realiza a acumulação primitiva; em meados do
século XIV os primeiros passos são dados quando a servidão é abolida e “massas
humanas são despojadas súbita e violentamente de seus meios de subsistência e
lançadas no mercado de trabalho como proletários livres” (MARX).
Vanguarda
Inglesa
Um
novo paradigma fenomenológico emergia dos destroços do feudalismo: a dissolução
dos séquitos feudais, gradativamente alterara o quadro social e estrutural,
dando condições de emergência para uma nova nobreza, comercial e industrial,
diferente daquela caracterizada como latifundiário-feudal; esta nova classe,
dando mais valor ao dinheiro e impulsionada pelas riquezas possibilitadas pelo
advento de novas formas de se produzir[2], e
um mercado consumidor mais vasto, lograra do esfacelamento da nova ordem, meios
de constituir as novas bases da sociedade moderna, de modo a estarem no poder.
“O impulso imediato para essas ações foi dado na Inglaterra, particularmente
pelo florescimento da manufatura flamenga de lã e consequente aumento dos
preços da lã” (MARX), de forma que aquelas áreas comunais em que trabalhavam
homens livres, e mesmo os servos remanescentes, foram cercadas com fito a criar
áreas de pastagens, movimento que ficou conhecido como os cercamentos.
Não
bastassem as questões economicistas, os conflitos religiosos também
contribuíram com o processo de acumulação; em toda a Europa a Igreja Católica
entrava em conflitos em função das denuncias de corrupção, em contrapartida
vinha o movimento reformista. Marx afirma que este “terrível impulso ao
processo de expropriação violenta das massas populares foi dado, no século XVI,
pela Reforma e, em consequência dela, pelo roubo colossal de bens da igreja”
(MARX), isto é, as terras comunais garantidas por lei aos camponeses pobres
foram confiscadas, além dos monastérios que serviam de reduto aos mais
miseráveis.
Com
a ascensão dos Stuarts ao poder “os proprietários fundiários instituíram
legalmente uma usurpação, que em todo continente também foi realizada sem
formalidades legais” (MARX), ou seja, àquele processo de expropriação dos meios
de subsistência e expulsão dos camponeses das terras comunais até então
ilegítimos, foram tornados legais. Algumas leis tentaram inibir esse processo,
mas foram ignoradas, ao contrário das leis que vieram ratificá-las como a “Bills for Inclusures of Commons”, que
tornavam particulares as terras anteriormente comunais.
Estes são os processos que constituem as bases
da reprodução capitalista: a constituição de uma riqueza precedente, de um
grupo dominante e de uma alienação histórica, que busca naturalizar um processo
totalmente contingencial. Em um parágrafo significativo do capítulo em questão,
Marx consegue relatar sua diagnose de forma precisa, clara e avassaladora:
O roubo
dos bens da Igreja, a fraudulenta alienação dos domínios do Estado, o furto da
propriedade comunal, a transformação usurpadora e executada com terrorismo
inescrupuloso da propriedade feudal e clânica em propriedade privada moderna,
foram outros tantos métodos idílicos da acumulação primitiva. Eles conquistaram
o campo para a agricultura capitalista, incorporaram a base fundiária ao
capital e criaram para a indústria urbana a oferta necessária de um proletariado
livre como os pássaros. (MARX)
Em
suma, os camponeses foram expulsos das terras das quais retiravam seu sustento,
foram desvinculados, ou melhor, privados das ferramentas de reprodução da sua
subsistência, e foram expulsos para as cidades, pois nenhuma parcela de terra
ficara disponível sem apropriação particular, o que veio a ser chamado de clareamento. Em contrapartida, as
cidades urbanas, redutos da imundice industrial, receberam de braços abertos
essa massa de indivíduos, desesperados por um prato de comida, a ponto de
trabalharem quantas horas fosse necessário e quanto o corpo pudesse aguentar;
um exército reserva, que mantinha as máquinas sempre funcionando, as camas
sempre quentes[3],
e os salários sempre baixos.
Poderia
se pensar que os cercamentos deveriam
ter feito os salários aumentarem em função de uma redução dos trabalhadores no
campo, mas em função das novas técnicas de plantio e novo maquinário, além das
vantagens para o próprio plantio de se cercar as terras, a produção de
alimentos aumentara; o que somara ao problema da superpopulação das cidades uma
redução dos salários de subsistência. Muita gente precisando de trabalho e
salários baixos: uma fonte de riqueza para os industriários. Desse processo
Villar afirma que: “expropriação – proletarização: são dois
termos da acumulação primitiva” (Vilar).
É
evidente que essa pobreza traz seus prejuízos, como o aumento no nível da
criminalidade; o que levou os governos, desde o século XVI até mesmo o século
XIX, de leis que impunham multas e castigos aqueles que não trabalhassem. As
Leis dos Pobres aterrorizavam as pessoas que não trabalhassem, perseguindo e
torturando qualquer um que tivesse condições física e mental de fazê-lo, mas
não o fizessem, isto é, deveriam se sujeitar a qualquer emprego por qualquer
valor, mas não poderiam ficar vadiando e mendigando pela cidade.
Assim, a população rural, depois de ter
sua terra violentamente expropriada, sendo expulsa e entregue á vagabundagem,
seria obrigada a se submeter, por meio de leis grotescas e terroristas, e por
força de açoites, ferros em brasa e torturas a uma disciplina necessária ao
sistema de trabalho assalariado. (MARX)
Muito
além dos limites da Inglaterra, essa expropriação maculou todas as partes do
mundo:
A descoberta das terras auríferas e
argentíferas na América, o extermínio, a escravização e o soterramento da
população nativa nas minas, o começo da conquista o saqueio das Índias
Orientais, a transformação da África numa reserva para a caça comercial de
peles-negras caracterizam a aurora da era da produção capitalista. Esses
processos idílicos constituem momentos fundamentais da acumulação primitiva. A
eles se segue imediatamente a guerra comercial entre as nações europeias, tendo
o globo terrestre como palco. (MARX)
Expropriação esta que precedeu a forma
moderna perpetrada pelo capitalismo durante a dominação dos grandes impérios
econômicos; e mesmo depois, quando a própria lógica economicista exigiu uma
autonomia mundial, a dominação continuou, de modo que a mão visível do
imperialismo fora substituída pela mão invisível da ordem mercadológica, mas
continuou sendo a mesma mão.
Da Naturalização
do Contingente
Os séculos se passaram desde o
início do processo de acumulação primitiva, de forma que as raízes foram se
aprofundando no solo da naturalidade, e as gerações posteriores foram nascendo
dentro deste novo modelo, cada vez mais habituadas; já no “século XIX,
naturalmente, perdeu-se até mesmo a lembrança do nexo entre o lavrador e a
propriedade comunal” e no “envolver da produção capitalista desenvolve-se uma
classe trabalhadora que, por educação, tradição e hábito, reconhece as
exigências desse modo de produção como leis naturais e evidentes por si mesma”
(MARX).
É assim que se constitui uma riqueza
previamente dada à acumulação capitalista, da mesma forma como surgem os demais
pilares desta, com uma mão-de-obra domesticada para o trabalho,
majoritariamente defensora do “capitalista industrioso” que lhes dá a
possibilidade de praticarem a subserviência; e também, da mesma forma criam-se
a massa consumidora daquilo que ela mesma produz e é alienada. O processo de
dominação material traz em seu bojo a dominação ideológica, de forma que sejam
pelo discurso do merecimento, do esforço individual, e da supervalorização da
mediocridade que se ludibriam as pessoas; as fazem acreditar que possuem algo
que lhes seja impossível de tomarem.
Eis então o período da história em
que as explorações se acentuaram e a dominação do homem sobre o homem se especializara.
Deste ponto em diante a discrepância entre riqueza e pobreza se acentua, configura-se
e reafirma-se a ordem classista e perpetra-se a dominação material e simbólica.
[1] Este tópico versa sobre o período conhecido
como Renascimento Comercial, entre os
séculos XI aos XIII que abarca o conjunto de transformações quantitativas
responsáveis pela transformação qualitativa, que viria a alterar a estrutura
social, política e econômica da Europa, e daria escopo para o surgimento do
capitalismo enquanto nova ordem.
[2] A produção artesanal, executada pelo indivíduo detentor do
conhecimento, dos equipamentos e da vontade, representara na história um papel
significativo, enquanto seu produto satisfazia as necessidades feudais em
comercializações fechadas e diminutas. Mas a derrocada do modelo feudal, o
aumento da comercialização e das demandas impuseram transformações necessárias;
eis que o modelo produtivo sistematiza uma organização familiar dividida em
atividades afins, com fito a melhorar os resultados. Dessa forma, emerge a
manufatura familiar, em que os membros de uma família, além de alguns
empregados, compõem uma pequena sequência de trabalhos nos quais cada qual
executa uma tarefa específica. Neste percurso histórico, a manufatura familiar
e a cooperativa, encontram seu fim na organização da sua produção sob uma mesma
área (uma espécie de galpão), de forma que a manufatura seja a associação de indivíduos na realização de tipos
específicos de trabalho, chamado trabalho coletivo, em que as aptidões para
cada tarefa direcionam o trabalhador para aquela em específico, fazendo o uso
otimizado do mesmo; ou seja, “quando as diferentes operações são separadas,
isoladas e tornadas independentes, os operários são distribuídos, classificados
e agrupados segundo suas aptidões especificas” (GORZ, p. 23). O ápice da
exploração e sujeição do trabalhador ao capital se dá na fábrica. Aqui, sob o
mesmo teto, concentram-se o conjunto de manufaturas em linha de produção,
concentram-se todas as etapas do processo produtivo, organizadas e
automatizadas, de forma que a fábrica não exige capacidades especiais para a
realização do trabalho, especialmente porque “a rapidez com a qual as crianças
aprendem a trabalhar com as máquinas suprime a necessidade de formar
especialmente classes de operários para esse trabalho” (GORZ, p. 30).
[3] Há relatos de que os trabalhadores faziam
mais de 16 horas trabalhando, de forma que quando iam para aqueles locais
reservados para eles dormirem, o outro grupo de trabalhadores acabara de se
levantar e ingressar nas suas funções, de forma que as camas não teriam sequer
tempo de esfriarem antes de o próximo grupo aparecer para seu descanso.
Referências
GORZ, André. Karl Marx, Da Manufatura à Fábrica Automática.
VILLAR, Pierre. A Transição do Feudalismo ao Capitalismo.
MARX, Karl. A assim chamada acumulação primitiva. In: cap. XXIV, O Capital. Versão e-book, sem páginas de referência.
POR: AHBO
POR: AHBO
Comentários
Postar um comentário