Das Implicações Para O Pensar Sociológico Posto Sua Genealogia E Trajetória
O ápice das transformações sociais em seu aspecto qualitativo, observado nas rupturas do passado com a presente modernidade, constrói-se sobre agitações culturais, sociais, religiosas, econômicas e políticas. A derrubada de um regime fechado em si, a expansão comercial, a transição de modelos econômicos, a retomada dos pensamentos clássicos, o fomento cientificista calcado nas expansões marítimas, a emancipação da razão das amarras teológicas e o posicionamento do homem como centro do universo, erigiram os pilares das revoluções que sucederam essas etapas.
Vinha à tona a Era de Prometeu. Na posse de conhecimento, criatividade e subvertida a natureza, de deusa à matéria-prima, os homens colocaram-se em condição de escreverem a própria trajetória, a própria história. O tecido social tradicional fora rechaçado pelas duas Grandes Revoluções – Industrial e Francesa. A automatização do maquinário se apresentava como obra prima, mas voltava-se como força coercitiva na própria autonomia que o progresso tomara; a razão, perpetradora do mesmo, também fora permissiva quanto às consequências perniciosas deste.
Das Luzes à escuridão; mais do que a volta em torno do eixo terrestre, tal disposição sustentara a coexistência do progresso e da degeneração humana. Os prognósticos da razão e do progresso, tangiversaram largamente às realizações concretas. Em um constante conflito entre igualdade, fraternidade e liberdade estavam a desigualdade social, a indiferença ao próximo e a exploração do outro. Cada vez mais a emancipação do homem daqueles limites tradicionais retrógrados ensejava uma nova forma de sujeição do homem pelo homem.
O ápice dessa contradição na Era contemporânea se revela pelas duas Grandes Guerras Mundiais, com ênfase à segunda. O progresso que a razão estimara como mecanismo de libertação do homem, dos limites da natureza e dos seus pares, fora responsável pela dizimação em massa com a bomba atômica. Parecera, então, que tudo que o homem conseguira com maestria fora se tornar exímio na “arte de matar”. Sem esgotar sua criatividade neste projeto de autodestruição, mais manifestações revelaram-se no período pós-guerra. A sublevação dos oprimidos, a revolta dos que resistiam, e os movimentos sociais engajados na subversão dos poderes vigentes, revelavam o cenário contrastante do projeto “progresso”.
A sociologia emerge da miscelânea objetivada na modernidade, a despeito, e em virtude, das transformações epistemológicas sustentadas pela evolução racionalista sujeita aos paradigmas vigentes. Posto isto, é possível deduzir as dificuldades desta ciência em sua trajetória e em sua proposta. A possibilidade do estudo sociológico em uma era de incertezas coloca qualquer resultado analítico em xeque. As certezas clássicas, tradicionais, foram destruídas pelos primeiros movimentos de transformação do tecido social, de forma que na modernidade, erigem-se novos paradigmas, novos totens, novos tabus, porém, demasiado instáveis; pobres de valor simbólico e fracos quanto à coesão social. Disso, retira-se a velocidade de mutação social, todavia, não como um organismo vivo, coeso, uniforme, mas como um conjunto de microcosmos semi-independentes uns dos outros.
A implicação sobre o pensar sociológico evidencia-se justamente nas dificuldades de fazê-lo. A existência de uma sociedade em que não há predisposição clara sobre as regras do seu funcionamento e das relações subjacentes, exigiria uma ciência tão orgânica, dinâmica e instável que a desqualificaria do conceito próprio de ciência. Ou ainda, mesmo que fosse possível fazê-lo, o homem não teria condições intelectivas e temporais suficientes para compreendê-las em toda sua complexidade.
Comentários
Postar um comentário