Do Homem

A Autonomia do Inconsciente

Estudos científicos apontam que mais de 90% das ações humanas são processadas inconscientemente. Ou seja, ações e escolhas que acreditamos fazê-las conscientemente na realidade já foram processadas no inconsciente, considerando para tal uma gama de informações que já compunham nosso arcabouço informativo. Essa proporção supri as necessidades de sobrevivência do homem, visto que não seríamos capazes de executar tudo o que executamos se tivéssemos que dar integral atenção para cada ação.

Ainda que não notemos, todos os sentidos estão em alerta para os sinais emitidos pelo ambiente. Se pensarmos na infinidade de movimentos, conversas, atitudes, reflexos, olhares, etc; perceberemos a real importância da autonomia do inconsciente. Muito além de uma "mecanização", temos a realização prática e teórica de tudo aquilo que compõe nossa essência. Portanto, é de suma importância compreender como se constitui tal banco de dados.

A construção do Inconsciente

Do momento em que os órgãos receptores de impulsos estão formados podemos conjecturar que se inicia a construção do banco de dados; de modo bastante complexo, se pensarmos que antes mesmo de termos os nomes e os significados para as excitações, as mesmas já se manifestavam em nós. Portanto, do início ao fim da vida somos espicaçados pelas forças no meio, e consequentemente alimentamos nossa tabula rasa. 

Ao longo de toda a vida estamos inseridos em vários círculos familiares e sociais que nos impõem conceitos, valores, tarefas, etc. O seio familiar é o primeiro responsável por iniciar a construção do que virá a ser o alicerce da nossa edificação principal. É da relação entre os pais e irmãos, da atitude de cada indivíduo que tudo se inicia. Conforme se expandem as relações sociais, mais complexas tornam-se as informações recebidas.

"Despercebidamente", ao longo do desenvolvimento humano, vamos acumulando uma infinidade de informações que se juntam aos conceitos que absorvemos e adaptamos ao nosso interesse (que não deixa de ser resultado dessa mesma absorção). Ininterruptamente alimentamo-nos dessas informações e agimos, pensamos e falamos segundo as mesmas. 

Os Processos de Escolha    

A compreensão dessa mecânica faz daquele que entende a máquina o seu operador. Entendido isso, podemos especular que existem níveis de informação deliberadamente dispostos de formas diferentes, de tal modo que seja possível controlar e conter os detentores da mesma, com maior ou menor facilidade.

É muito comum o pensamento de que fazemos e pensamos aquilo que queremos, mas na realidade fazemos e pensamos aquilo que nossa trajetória nos condicionou. Seja tal condicionamento ocorrido de forma involuntária ou planejada.

Sociólogos já identificaram os resultados dos processos sociológicos no que chamamos de "gostos individuais". Portanto, a afirmativa de que gosto não se discute é inexistente, já explicou-se que os mesmos são resultados diretos das relações sociais estabelecidas.

Bombardeados pelas instituições: família, comunidade, escola, religião, governo e mídia, nosso arcabouço informativo torna-se muitas vezes equivocado, saturado ou insuficiente. Logo, nossas ações  e escolhas condizem com o mesmo.

A Ilusão de Liberdade

Idealizada, estudada e buscada pelo homem, a liberdade parece uma bela ideia, mas é um mero recurso esbravejado e cultuado por aqueles que precisam de uma motivação ou uma justificativa para ser e agir como o fazem. Porém é apenas uma ilusão. Antes de nascer, um indivíduo já tem à sua frente uma gama de trajetórias prontas. Alguém pode dizer que são muitas; mas não são infinitas e são impostas, seja pelo seio familiar, seja pelo condicionamento político-social-econômico.

Mesmo após a maioridade intelectual existem fios condutores. Escapa-se de muitas formas de controle mas não de todas. Logo, se faz necessária a cautela quando queremos festejar nossa autonomia, pois ela não existe de fato; não podemos pensar por nós mesmos porque isso nunca existiu. Sempre fomos e seremos o resultado do convívio social. Nossas escolhas sempre serão o resultado do coletivo, seja ele banal ou refinado.

Naturalidade e Artificialidade

Existe uma diferença entre os resultados da naturalidade da especie humana e da sua socialização. Muito do que parece natural do homem, como a fala e a escrita são na verdade resultados da sua convivência em sociedade. Logo, a construção do arcabouço informativo é um resultado artificial, pois resulta das relações entre os homens, e não de uma naturalidade inerente ao homem.

A importância de evidenciarmos essa informação é creditarmos alguma esperança de que o homem não enveredou pelo caminho da opressão pelo mero prazer, mas pelo desconhecimento. Haja visto o mal estar resultante da supressão dos prazerem em benefício da civilização; uma artificialidade necessária à sobrevivência das relações humanas.   

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