Resenha – Platão – A República

editado 21/10/17

A República – Platão

A obra em questão tem por finalidade principal a descrição do Estado Ideal. Esse projeto se dá, através de vários diálogos com Sócrates e alguns amigos, em uma visita a qual o mesmo é intimado. O tema e a idéia principal são construídos a cada rodada de argumentos e refutações que se iniciam deforma bastante simples e evoluem a temas e argumentações mais complexas.

Serão colocadas, resumidamente, as teses e as respostas de Sócrates, visto que os diálogos se estendem a vários pormenores de possibilidades retóricas. 

- Teses e Refutações

Dirigindo-se a Céfalo, o dono da residência a qual visitava, Sócrates pergunta-lhe o que seria a justiça para aquele. O qual responde “nunca mentir e pagar o que se deve”. A isto é respondido por Platão, através de Sócrates, que mentir pode vir a ser necessário, mesmo que seja para não magoar alguém (e não precisamos mentir sobre isso, todos sabemos que as pequenas mentiras são o liame da sociabilidade humana). Sobre a segunda parte da proposição de Céfalo, Sócrates a arranja de forma que ela signifique “devolver aquilo que é devido” no sentido mesmo de objetos; desta forma ele narra a possibilidade de pegar emprestada uma arma de algum amigo, e de repente este amigo que é acometido de total loucura pede a arma de volta; neste cenário não seria sensato devolve-la, o que não deve implicar injustiça. Desta forma fica negado que justiça seja “nunca mentir e pagar o que se deve”.

Polemarco assume sua posição no debate e insiste que, segundo um tal de Simonides, justiça é restituir a cada um o que é seu. Sócrates conduz o diálogo de forma a transforma essa afirmação de várias formas que possa refutá-la. Pelo princípio de que da justiça se faz uso sempre; Sócrates sugere que em períodos de paz pode-se muito bem pegar emprestadas as armas dos soldados, ou seja, estas são somente necessárias eventualmente, logo, inúteis em tempos de paz; Se a justiça existe somente em tempos de guerra, sugere-se que ela não exista em tempos de paz, o que vai contra o princípio do uso contínuo da justiça. Quando sugere restituir a cada um o que é seu, no sentido de restituir dano ao inimigo, Sócrates responde com a possível chance de nos confundirmos em relação ao nosso inimigo e ao nosso amigo, desta forma poderíamos prejudicar um amigo, e auxiliar um inimigo, o que iria contra esse conceito de justiça. Outra refutação seria baseada no fato da justiça ser uma virtude, e como tal não pode tornar pior algo; se restituirmos aos inimigos com a violência estaríamos tornando-os piores e não melhores, logo, justiça não pode ser a restituição a cada um o que é seu.

Trasimaco abruptamente lança suas colocações, bastante irritado com Sócrates, dizendo que este não responde claramente, mas permanece no âmbito das refutações. Sua tese é: justiça é o direito do mais forte. Enquanto foi evidenciada uma possível interpretação, ele posteriormente corrige, no sentido de que o mais forte sabe o que lhe é vantajoso. Fica entendido posteriormente que um governo representa o forte e o povo o fraco, logo, o povo deve fazer o que for do interesse do governo naquilo que é vantajoso a este. Através de algumas comparações com várias profissões, onde a essência da mesma não reside no interesse da sua execução, mas no efeito sobre outros, Sócrates diz que quem governa não governa para si, mas para o povo, o que significa que aquilo que faz é em beneficio daqueles não dele, desta forma o sentido de justiça de Trasímaco não se comprovaria. Outro fato é que os governos mudam, mas a justiça não muda conforme os governos, logo, justiça não pode ser a realização do interesse do mais forte visto se este amovível enquanto a justiça é absoluta.

Glauco inicia com uma alegoria, onde um tal de Giges encontra um anel e descobre que este o torna invisível; no uso dele ele comete crimes, invade intimidades alheias, enfim, utiliza-se de varias atitudes que não faria se pudesse ser visto. O cerne da alegoria é o fato da justiça não ter valor por ela mesma, verificado nas ações de Giges, que enquanto invisível cometeu vários crimes. Ou seja, a justiça é um elemento de comum acordo social na medida em que impede as manifestações despudoradas de todos, mas ao mesmo tempo é causa da frustração justamente por inibi-las.

Adimanto nem dá tempo a Sócrates de responder é já coloca sua tese, a qual diz que justiça não é ser justo, mas parecer justo, e dá muitos exemplos corroborados por Trasímaco de que quem tenta ser justo nem sempre o parece e sofre todos os infortúnios da causa, enquanto quem engana bem, é injusto, mas aparente justiça fica bem, é bem quisto e visto.

A estes dois Sócrates responde através da narração da construção do seu Estado Ideal. Ele começa por aí dizendo que é mais fácil verificar características em algo grande para depois supô-las em cada indivíduo. Mas para melhor responder as teses vou inverter. Acredito que não teremos prejuízo algum. 

Para Sócrates, a alma do homem é dividida em três níveis, um superior onde a racionalidade opera, cujo responsável pela administração é a sabedoria, um mediano onde repousam as emoções cujo administrador é a temperança, e um inferior muito maior, onde estão em ebulição os apetites da carne, e quem controla isso é o comedimento. E esses níveis não são independentes entre si, a temperança e o comedimento servem à sabedoria e uma pessoa está em equilíbrio quando as hierarquias são respeitadas, assim como as estruturas dos níveis; aquele que comanda sua vida pelas emoções ou pelos apetites não está em equilíbrio, portanto não pode ser justo.

Usando apenas isso podemos refutar Glauco e Adimanto no sentido que ambas teses sugerem indivíduos cujas almas estão em desacordo com o esperado, portanto não estando de acordo não podem ser realmente felizes praticando a injustiça, mesmo que momentaneamente satisfaçam seus desejos carnais e passionais. Pois é através do exercício das virtudes que alcançamos o plano das ideais e a real felicidade na contemplação do bem verdadeiro 

- Do Estado Ideal

Devemos lembrar que na Grécia antiga o conceito de formação universal era o de Cosmos, ou seja, uma existência universal organizada e perfeita, onde tudo que existe tem um motivo e somente na realização deste motivo sua harmonização estaria perfeita e eudaimonica. Além da crença em habilidades inatas, ou seja, alguns nascem para reinar outros para servir.

Da mesma forma que a alma do homem possui três níveis, também o Estado os possui. O menor nível destinado aos que comandam; o mediano destinado aos que protegem, e o terceiro nível destinado aos demais sem muito a oferecer. E para Platão, ou Sócrates, o melhor modelo de governo é a aristocracia. Mas a aristocracia em conhecimento, ou seja, para eles, quem deve mandar são os filósofos. A classe mediana destina-se a indivíduos valorosos destinados a proteger o governo, são os guerreiros, que recebem treinamentos e características muito específicas.

Sócrates dá vários detalhes sobre a forma de ensino ideal, disciplinas ideias, alimentação ideal,reprodução ideal, mas o que importa no todo é a forma de governo que ele acredita ser ideal. Sócrates discorre sobre as demais formas de governo e os motivos da sua derrocada, até mesmo da aristocracia intelectual. O declínio segue a sequência: de aristocracia de intelectuais para a timocracia, onde os guerreiros tomam o poder e exercem seu domínio na busca incessante por honrarias; posteriormente vem a oligarquia, são os herdeiros que sem interesse em guerrear contentam-se em lucrar cada vez mais, poupando sempre mais. Após estes vem a democracia, onde os filhos dos ricos só querem esbanjar as riquezas acumuladas por seus pais, donde resulta a ultima forma de governo, tirania, que surge deste caos. O resumo não transparece as involuções associadas a população em cada declínio. 

Mas, novamente, o que é significativo é seu relato do modelo ideal, a aristocracia intelectual, onde somente os filósofos seriam a melhor escolha.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dos Pré-Socráticos a Platão: Ruptura, Caos e Nascimento

Resenha: O 18 Brumário de Luís Bonaparte

A República - Platão - Resenha atualizada