A Falácia do Racismo Reverso

Seja pela hipocrisia ou pela ingenuidade a superestrutura ideológica e material, da classe dominante, esmera-se em garantir para si a parte do leão; tanto a ponto de vitimar-se perante ações individuais ou coletivas, públicas ou privadas, que intentem compensar a desigualdade social, simbólica e econômica dos mais desfavorecidos, em especial ênfase aos negros.

A confusão entre conceitos é explicita, não diferem racismo de preconceito, xenofobia, bullying ou chauvinismo. Usam e abusam dos diretos enquanto igualdades formais, mas esquecem das desigualdades reais.

Quando a mentira da meritocracia se evidencia, apela-se para a igualdade como balança da justiça. Esquecem que se trata de uma balança meramente formal, que iguala indivíduos perante a lei, mas não considera sua trajetória histórica, material e psicológica. Quaisquer atitudes sejam do governo ou mesmo de particulares, cuja essência seja contribuir com os negros, recorrem a essa igualdade formal os brancos, dizem estar sendo vítimas de racismo, racismo reverso.
Ignoram estes, se não agem de ma fé, que racismo é uma construção histórica que remonta há anos de exploração e comércio, especialmente de negros. Nenhum branco, por mais pobre que seja, jamais sentiu as mazelas reservadas aos negros. Castigos físicos, humilhações psicológicas, hecatombes sem fim. A simples libertação dos negros não foi capaz de corrigir os desvios na trajetória histórica de uma etnia explorada sistematicamente.

Apelar para o argumento de que negros escravizavam negros é uma artinha retórica triste. Na trajetória da história humana, muitos povos, inclusive no berço da cultura ocidental a Grécia, escravizavam outros. Mas a sistematização do comercio e tráfico negreiro deu outra tonalidade e essa exploração. Há muito já se questionava sobre a escravidão, mas por simples interesses comerciais e produtivos, por muito tempo ainda a alma do negro não habitou seu corpo. 

Então, o conceito de racismo possui em seu escopo, em sua essência, uma bagagem que nenhum branco pode sustentar para si. Por exemplo, o fato do branco não se enquadrar em políticas públicas para negros não configura racismo, mas sim o simples benefício que a trajetória da história já lhe reservara; o benefício de não precisar de auxílio algum para retomar a dignidade humana que, se negro, lhe fora tomada.

Portanto, não existe esse negócio de racismo inverso, apenas o cinismo do branco, que enquanto branco, pensa pertencer a classe dominante (o que não é quantitativamente verdadeiro, este é efeito da falsa identificação de classe), e desta forma reproduz os mecanismos de perpetuação da mesma.

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