Karl Marx
I – França
A maior expressão da luta pela liberdade, diz-se, reside na Revolução Francesa. Liberdade, Igualdade e Fraternidade foram as vestimentas unificantes dos inúmeros interesses divergentes. Sob a égide desta bandeira a sociedade francesa subjugou os interesses da monarquia absolutista e da aristocracia. Cabeças rolaram, derrubou-se a Bastilha na defesa do interesse geral, e essa ingenuidade generalizada que garantiu facilidade na obtenção do controle por parte da burguesia.
Atrasada pelos interesses da aristocracia, que na França, herdeira dos estigmas feudais, forçava-se em manter-se no poder, apoiando-se no suposto direito histórico estabelecido, e na qual se fiavam alguns, seriam os déspotas iluminados; ou catalisada justamente pela exploração exacerbada destes supostos direitos sobre a terra e aqueles que nela habitam; por um, por outro, ou por ambos, a Revolução Francesa estourou. A classe mercantilista, os artesãos, cansados do medievalismo e entroncamentos impostos por aqueles que até então ditavam a ordem social, os trabalhadores rurais altamente explorados, os pequenos comerciantes, em uma união histórica lutaram pela derrubada da monarquia, dos aristocratas que esbanjavam a riqueza produzida pelo baixo escalão da sociedade.
Liberdade, principalmente a liberdade econômica. Derrubada a monarquia e deslocado temporariamente os interesses deles, instalou-se a economia liberal e plantou-se a semente capitalista.
De fato, a aristocracia não seria retirada do poder com facilidade, e com seu potencial econômico, e a capacidade de migrar sua forma de riqueza, ela cativa aquela burguesia crescente acima das demais. Gradativamente a aristocracia – ao menos aqueles que tiveram adaptabilidade, percepção e sagacidade suficientes para notar a nova ordem social que se instalava – transforma-se na nova classe dominante. Seja no financiamento dos empreendimentos alheios ou no investimento individual.
Durante o governo provisório aparentou-se a possibilidade da influencia por todas as partes participantes da derrubada da aristocracia, mas logo essa centralidade pendeu aos interesses específicos. O proletariado, que auxiliara na derrubada do poder instalado aguardava, enquanto acreditava ter sua participação observada e suas solicitações atendidas. Porém seus interesses eram divergentes dos interesses da burguesia. Até mesmo a baixa burguesia, constituída de pequenos produtores, manufaturas e artesãos que até então se identificavam com os proletários, abandonaram-nos para se re-identificar com a alta burguesia.
Novamente os trabalhadores estavam por conta, rejeitados seus interesses e necessidades. Fizeram-se vários levantes e em todos, em especial o de 1848, foram abafados através da violência. Afogados no seu sangue e suor o proletário foi subjugado.
A burguesia resistiu, e desde então, através de diversas formas de influência, principalmente a econômica, ela determinou os valores, conceitos, cultura e ideais condicionantes ao interesse burguês. Desde então o que se sabe é que eles querem que se saiba, ou como disse Marx: os ideais dominantes em uma determinada época são os ideais da classe dominante.
Estabelecida a nova estrutura, readequado os interesses e compreendido quem daria as cartas, desde então os trabalhadores são a classe concorrente e entre eles e a classe dominante se estabelece o novo e permanente conflito. Aliás, o conflito sempre foi entre uma classe dominada e uma dominante e a ferramenta de opressão eram as formas de troca, comércio e propriedade. Assim permanece, com atores diferentes, mas lógica semelhante.
II – Inglaterra
É historicamente conhecida a situação dos ingleses no período da industrialização. De longa data a população vinha se acumulando nos centros urbanos, desde a valorização da lã, a necessidade da sua produção em alta escala e os consequentes cercamentos. Expulsas das propriedades nas quais trabalhavam e moravam, em uma perspectiva servil, ainda que recém libertas, ficavam por conta própria jogadas ao acaso, acumulando o mercado de trabalho, contribuindo com a desvalorização extrema dos salários de subsistência, “lançadas ao mercado de trabalho como pássaros livres”.
Cada vez mais esse quadro tendia a piorar. A Revolução Industrial, como um cavaleiro apocalíptico, trouxe consigo o desenvolvimento tecnológico ameaçando aqueles poucos que tinham oportunidade de terem o resultado do seu trabalho expropriado de si pelo sistema instalado. Eram diretamente proporcionais os lucros e vantagens crescentes da burguesia industriaria, e a fome, a degeneração generalizada do espírito humano em um espécime alienado, subjugado por conceitos e percepções que vinham se construindo, não coincidentemente, favoráveis aos interesses da classe dominante; ou seja, necessidades divergentes variando de forma inversamente proporcionais, vantajosamente aos ricos em detrimento dos pobres e oprimidos trabalhadores.
Em um quadro altamente crítico aos trabalhadores, grupos contra o advento das máquinas, como resultado da industrialização, passam a destruí-las, movimento conhecido como Ludismo. No geral, eram movimentos organizados por sindicalistas, inflamando os trabalhadores contra o que, supostamente, era o causador das suas aflições.
Gradativamente os movimentos dos quebradores de máquinas foram sendo hostilizados entre os empresários e industriários, sendo cridas leis cada vez mais protetivas os interesses destes. Tanto que em 1812 vários envolvidos neste movimento foram condenados à morte.
No entanto, com o fervor já instalado, novas formas de manifestação se deram. O surgimento do movimento cartista conquistou várias medidas protetivas aos trabalhadores, por exemplo, a primeira lei de proteção ao trabalho infantil.
Sendo a Revolução Industrial o catalisador de outros vários acontecimentos históricos, inclusive em outros países, não há como ignorar que as consequências, econômicas, sociais e culturais afetaram toda uma geração da época e posteriores. Marx nasceu na Alemanha, em 1818. Ainda que lá o desenvolvimento industrial estivesse atrasado, em comparação com a Inglaterra, pois ainda preservava-se a estrutura travada do feudalismo, mesmo lá houve consequências da Revolução Industrial, assim como já deixara marcas, em toda a Europa, a Revolução Francesa.
A cada mudança estrutural correspondem consequências hereditárias, e assim as consequências da Revolução Francesa, Industrial e as Revoluções Proletárias moldam o contexto no qual viverão Marx e Engels.
A Inglaterra foi, dada sua dianteira nas lutas de classes, a referência principal nas análises de Marx e Engels, ainda que frequentemente o raciocínio deles se voltasse para a Alemanha, dada suas origens. Do mesmo modo como as revoluções trabalhistas que ocorreram na França forneceram exemplos e material do que já apresentava seus maiores escritos.
O período histórico e o contexto abarcam demais filósofos, escritores, historiadores que pensando separados ou conjuntamente, elaboraram noções e conceitos ideais ao bem estar humano (utópicos ou não), e à saúde da humanidade, tais ideais resultaram no Manifesto Comunista.
III – Genealogia Antropológica
“O roubo dos bens da Igreja, a fraudulenta alienação dos domínios do Estado, o furto da propriedade comunal, a transformação usurpadora e executada com terrorismo inescrupuloso da propriedade feudal e clâmica em propriedade privada moderna, foram outros tantos métodos idílicos da acumulação primitiva. Eles conquistaram o campo para a agricultura capitalista, incorporaram a base fundiária ao capital e criaram para a indústria urbana a oferta necessária de um proletariado livre como os pássaros”. A Assim Chamada Acumulação Primitiva – Marx, K. Livro Primeiro, Tomo 2, Capitulo XXIV.
Considerando-se todas as vertentes filosóficas já propostas, saindo do obscuro mundo da fé cega, da sujeição religiosa, passando pelo antropocentrismo, da alta importância do homem frente à natureza, culminando em propostas existencialistas das quais tiram do homem sua majestade frente ao motivo existencial de tudo, exceto dele mesmo. Ainda hoje, não há resposta; exigir perfeição de Karl Marx, limitado no seu tempo, tecnologia, e desenvolvimento intelectivo da época, é tentativa constante de desqualificar uma proposta que poderia descapitalizar o homem, e humanizá-lo.
Ressalvada a observação acima, dada tratar-se de uma observação atual, segue a análise de Marx sobre como se deu a estruturalização social.
Como Marx e Engels observavam, o componente constituinte da sociabilidade humana é a luta de classes. Na França, sob a bandeira da Revolução Francesa, a cisão seria entre os aristocratas e representantes da monarquia absolutista e os burgueses, pequenos burgueses, artesão e proletários. Na Inglaterra, depois de derrubada a monarquia absolutista, também as divergências eram entre os trabalhadores e a burguesia.
Também para Marx, toda a história humana poderia ser explicada e principalmente fundamentada nas relações de troca. Da mais simples a mais complexa, tratando-se de um intrínseco componente da sociabilidade humana: interesse ou sobrevivência. Qualquer união tem por base uma troca, não necessariamente material, nem obrigatoriamente prejudicial, porém não deixa de ser uma negociação. Mas o fator determinante na proposta marxista é que ele atribui à propriedade os motivos perniciosos da troca. Afinal, em uma relação de troca, quando se tem matéria prima natural e espaço de sobra, não há conflito. Todavia, quando o mundo conhecido tornou-se pequeno e alguém se achou no direito de tomar posse de algo, criou-se conjuntamente a concorrência.
Fundamentado nessa necessidade de trocar, comprar e possuir, a sociabilidade teve seu desenvolvimento cada vez mais segregado. A própria divisão do trabalho com fins de melhorar a produção causou a divisão social. Determinados empregos associaram a si imagens mais nobres enquanto outros eram considerados infames. Ainda que ambos contribuíssem com o funcionamento da dinâmica mercantil. Essa especialização profissional contribuiu para ampliar a segregação social, e consequentemente ampliar a discrepância das suas necessidades.
Expressos os interesses divergentes, a única solução aparentemente lógica é a disputa. A luta. A mesma espécie de luta que na época de Marx ele chama de luta de classes. E que inúmeros outros escritores tentaram minimizar, ou mesmo eliminar.
No caso específico da Inglaterra, com a Revolução Gloriosa qualquer entrave tipicamente feudal foi desfeito, e o quadro social estava extremamente favorável ao desenvolvimento do capital; massas de povos subjugados, sedentos pelo básico da sobrevivência, clamavam pela possibilidade de trabalho. Vendiam a única coisa que ainda possuíam; sua força de trabalho. De forma legalizada arrendatários dos feudos tornaram-se proprietários daquelas terras, e servos ou trabalhadores livres tornaram-se proletários. Conjuntamente a ascensão da burguesia veio a bancocracia.
Para Marx, após a tomada do poder, a burguesia influencia as instituições, todas elas, desde religião, à cultura, educação, família, aparato governamental, mecanismos de financiamentos perniciosos, etc. Tal situação é chamada por Marx de Superestrutura. Funcionando como um anteparo contra a realidade, alienando as pessoas, inclusive, gradativamente se auto-alienando. Tal superestrutura era capaz do efeito chamado falsa identificação de classe, que para Marx era um grande entrave ao desenvolvimento da revolução necessária. Tanto que sua proposição é o esclarecimento desta classe proletária, da sua importância, finalidade e força, demonstrando a ela como até então têm sido oprimida e expropriada.
IV – Karl Marx
Marx nasceu na Alemanha, estudou filosofia, direito, sociologia. Vivia no mundo acadêmico. Foi a partir de alguns encontros com Engels que sua percepção, daquilo que definiria toda sua vida, passou a importar. Foi a partir do texto de Engels (A situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra) que Marx percebeu a classe proletária.
Dada a opressão sofrida na Alemanha, Marx precisou fugir para a França e posteriormente para a Inglaterra, onde juntamente com Engels, encontraram tanto maior facilidade e menor coerção quanto um quadro muito mais rico em exemplos e potencial revolucionário.
Ambos resultado de inúmeros processos sociológicos, históricos e culturais, herdeiros do legado da “Era de Vasco da Gama”, da explosão capitalista e das colonizações ao redor do mundo, dedicaram a vida mais do que a meras análises, mas também a proposição de soluções e ação no sentido de sanar as sequelas sociais oriundas do processo de instalação do capitalismo.
Marx, inicialmente seguidor da filosofia hegeliana, toma um rumo diferente de Hegel a partir da concepção de Estado deste, além de divergir da sua filosofia da evolução espiritual de Hegel.
No tocante ao Estado, Hegel afirmava que este é a referencia ideal para a sociedade. O que ele faz e manda fazer é o mais correto. Como uma instituição que pairasse sobre todos, acima de questionamentos. Em confronto com a vertente hegeliana sobre a importância do Estado para a sociedade, que tornava o Estado e suas sugestões como o ideal, Marx diz que este é outra ferramenta dos interesses particulares nessa superestrutura, e deve ser derrubado pelo proletariado. Segundo ele, o Estado nada mais faz do que impor e exigir aquilo que contribua apenas com a classe dominante. Ainda que exista uma participação da população como um todo, os indivíduos que operam a maquina estatal são sujeitos aos interesses dos industriários, empresários e financistas, ou os antigos burgueses.
Também há uma divergência em relação à filosofia, propriamente dita, de Hegel, onde ele afirma que cada instante é um instante de conflito, e a cada resolução sintetiza-se uma nova situação melhorada em relação a anterior e forja-se novo instante de conflito e assim sucessivamente. Nesse processo o espírito humano alçaria patamares mais elevados.
Marx utiliza-se de uma vertente materialista. A concepção materialista é a vertente que explica os processos sociológicos, culturais e históricos como resultantes das relações imediatas entre o homem, sendo essas, principalmente (talvez exclusivamente), as relações de troca e comércio. E tal resultado é oriundo de vários fatores, como a divisão do trabalho, consequentemente, da divisão social, segregando a sociedade em castas, opondo assim seus interesses. E dados esses interesses divergentes, outro fator importante na construção sócio – histórica é o que Marx chama de acumulação primitiva. Este seria o processo pelo qual a riqueza feudal, tradicionalmente as terras e os servos, transformaram-se na riqueza em capital. Analisando os fatos históricos, ele observa como os servos, ou trabalhadores livres que atuavam nas terras arrendadas foram expulsos dessas terras – em benefício dos cercamentos - e lançados como proletários livres nos centros urbanos, em detrimento deles mesmos.
Diferentemente da vertente hegeliana, onde situações antagônicas sujeitariam o homem a uma síntese resolutiva e espiritualmente evolutiva, a concepção materialista explana que tais situações contraditórias são o resultado exclusivo das necessidades implícitas em cada contexto econômico-político-social, e onde cada situação nova pressupõe novos conceitos, ideais e processos socializantes, ou de - socializantes (dependendo do efeito). Ou seja, tudo o que é e ocorra, só o faz porque é cabível aos interesses do modelo de produção instalado; o que difere disso não é relevante, até que a outros fatores ou formas de produção assim o tornem.
Não haveria prova maior da veracidade da percepção materialista do que os próprios Marx e Engels, seus textos, pensamentos e ideais.
Dadas todas as informações coletadas, analisadas, repensadas, Marx elabora a sugestão de que, sendo o proletariado a classe oprimida, seriam eles os libertários de todos. Inicialmente através de uma ditadura do proletário, posteriormente através da auto – governança. Destruiriam a superestrutura, e quaisquer meios que fizessem referencia à burguesia e a uma fragmentação de classe. Não haveria mais concorrência, mas colaboração generalizada.
V - Manifesto do Partido Comunista
“Um Espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo”.
Muito do que já foi supracitado contempla as percepções e o entendimento marxista. O que segue adiante é uma explanação sobre o Manifesto do Partido Comunista.
Da Liga dos Proscritos, enfraquecida e pouco influente devido sua clandestinidade, dando origem a Liga dos Justos após reorganização, culminando na Liga dos Comunistas, contemplando até então o maior arcabouço intelectual da época, no tocante ao tema socialismo e comunismo; da união dessas ideias e ideais nasce uma espécie de catecismo voltado ao tema anteriormente citado. Para Marx, a palavra catecismo não contemplaria a idéia contida no texto. Daí o nome proposto, Manifesto do Partido Comunista. Originalmente sem autoria específica, posteriormente atribuída ao próprio Marx, o manifesto explana desde a origem do que os motivara a escrever até o motivo fim do próprio manifesto em si.
Artisticamente a narrativa do Manifesto Comunista pinta os processos históricos demonstrando a forma pela qual a burguesia colocou-se no poder, e a forma pela qual ela deveria cair.
Vitoriosa em suas lutas contra a aristocracia feudal, contra os entraves e amarrações comerciais que limitavam os ganhos dos comerciantes e artesãos, a burguesia nascente galgou com forças próprias o topo do domínio econômico. Aqueles da classe dominante que perceberam o potencial da classe insurgente à ela se juntaram, longe das motivações nobres preocuparam-se apenas em manter-se na futura classe dominante.
Assumido o papel de protagonistas dos interesses econômicos da nação, a burguesia promoveu, através da alta comercialização e do desenvolvimento tecnológico, a capitalização do que antes foram os supostos direitos feudais. Da servidão recentemente findada britaram a mão de obra necessária aos interesses de uma industria em ascensão. Legitimadas pela lei interesseira promovida por um aparato governamental já tendencioso, os direitos expropriatórios foram garantidos. Com isso cada vez mais mão de obra ficava disponível aos meios de produção capitalista.
O proletariado, forjado ao longo dos séculos através de seqüenciais opressões sobre suas formas: escravos, servos, trabalhadores livres, pequenos camponeses vinculados a terra seriam, para os criadores do manifesto, a classe que em virtude justamente dessa constante opressão, insurgir-se-ia na revolução que derrubaria quaisquer características burguesas e suas instituições moldadas a seu bel prazer. Não mais haveria lutas de classes, pois tal segregação seria abolida. Não mais haveria propriedade, pois todos contribuiriam para o todo sem a posse, sem subjugar o outro por posse alguma.
VI – Marx e o Manifesto
Como já foi dito, o Manifesto do Partido Comunista não é um texto de criação exclusivamente de Marx, mas foi Marx quem o escreveu e assim garantiu que idéias perniciosas não deturpassem seu conteúdo. Engels quem convencera os lideres da Liga dos Comunistas que fosse passado para Marx o dever de escrevê-lo. E assim o fez, terminando sua escrita próximo ao mês de Fevereiro de 1848. Logo após as primeiras tiragens do manifesto, explodira na França a revolução que suprimiu os proletários e silenciou seus interesses.
Os eventos em si não possuem correlação; não fora o manifesto impresso que causara a revolta, mas não deixa de ser uma coincidência interessante.
Após expressa uma teoria é difícil controlar o que e quais interpretações far-se-ão dela. Não à toa existem governos autonomeados socialistas ou comunistas cuja dinâmica capitalista continua sendo o fundamento social. Logo, tais sistemas governamentais mancham o ideal do comunismo, desqualificam o sistema e tornam mais difíceis sua aceitabilidade frente aqueles que precisam desvencilhar-se da opressão capitalista.
VII – Conclusão
A lógica materialista, a influência da análise empírica, a capacidade inquestionável de diagnose de Karl Marx são indubitáveis; o fato de não ser uma doutrina dominante não o desqualifica, pois ainda que tenha brechas questionáveis que foram utilizadas por liberais ou antimarxistas, ainda assim faz frente ao sistema instalado, a saber o sistema capitalista. Sua essência, conteúdo literário, relevância dos fatores sociológicos e culturais desbanca tranquilamente os exacerbados apelos sobre a pouca explanação dos modelos de oferta e demanda. O desespero desses indivíduos os impele ao uso e manipulação da matemática, estatística vazia, na tentativa de legitimar suas teses falidas. Magistralmente vestem sua literatura infundada na nobreza dos raciocínios matemáticos, deformam sua essência em virtude da incoerência.
O erro, se é que se pode chamar de erro, de Marx, foi o superestimar a capacidade de compreensão, organização e ação da classe operaria. Ainda que o “erro” consista mais em acreditar na explosão da revolução, a curto prazo, do que em sua ocorrência em si. Pois os déficits citados anteriormente da classe trabalhadora podem, e são, gradativamente reduzidos em intervalos mais longos, através dos sucessivos aprendizados, conscientizações e organizações auxiliadas pelas conquistas da burguesia- comunicação, tecnologia, otimização na forma de ensino, etc.
No geral, sua observação e forma empírica de comprovar sua lógica tornam dificilmente contestáveis seus argumentos, excetuando pela burguesia cuja refutação se fundamentava em abstrações medonhas sobre como seria o sistema comunista; como uma sociedade constituída de pessoas pobres; lógica combatida com psicologia barata, ironicamente os liberais se utilizam das equações matemáticas para explicar o comportamento da economia, mas apelam para as emoções – as quais não são contempladas em sua totalidade por nenhuma equação possível – quando se faz necessário.
Dificilmente concebemos a totalidade proposta pelo Manifesto Comunista, tanto por sua falta de esclarecimento sobre como seria exatamente o comunismo funcional, mas principalmente em virtude das nossas percepções altamente conjugadas no contexto capitalista, na nossa crença da importância e indispensabilidade do Estado, e principalmente frente a nossa incapacidade de auto-governança.
O homem busca um fio condutor no qual se agarrar, pois à deriva é penosa vida, enquanto ele não descobrir sua finalidade existencial, à deriva é pior do que a escravidão voluntária. Esta lhe dá um fim, digno ou não, é um guia para a vida. Enquanto o capitalismo minar o tempo do homem na produção, menos tempo ele terá para o autoconhecimento, e menos tempo terá para encontrar seu motivo existencial. Essa é a dinâmica capitalista, sua maior ferramenta de coerção é manter o indivíduo temporariamente satisfeito com as banalidades mundanas; não à toa a democracia é tão bem vida.
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