Genealogia das Relações de Produção - texto 1
A sociedade se estrutura segundo suas relações de produção.
Peguemos na história primitiva a célula mais básica da sobrevivência humana, a saber, a família. Independente do seu gênero, seja patriarcal ou matriarcal, o que importa é que temos divisões de competência dentro desta estrutura, e tal se dá ao redor daquele que fornece os meios de sobrevivência. Não necessariamente o pai pela figura paternal intrínseca, ou mesmo da mãe como tal, mas aquele que obtém e distribui os espólios da caça, pesca, assim como domina o conhecimento do fazer (certamente consideramos o mesmo como um resultado dos processos histórico, sociológico, geológico, religioso, econômico e cultural). Desta relação familiar deduzimos uma relação de trocas (na mais primitiva e simplista forma), e assim uma relação de subserviência e dominância. Engana-se aquele que não vê alguma reciprocidade que não justifique o termo "trocas"; toda relação pressupõe algum tipo de troca, não necessariamente material nem obrigatoriamente interesseira, mas ainda assim "trocas", portanto relações de subserviência e dominância.
Podemos perceber que é esta relação específica que estrutura esta nossa família. Portanto expandindo tal entendimento a uma comunidade podemos afirmar que as relações de produção e troca a estruturarão segundo essas necessidades. Ou seja em uma forma de produção e distribuição comunitária, tanto sua estrutura quanto seu governo se adequam segundo tal modelo. Enquanto neste modelo as relações de dominância e subserviência se cancelam mutuamente, há modelos em que não existe esse cancelamento, permanecendo, reforçando-se e intensificando-se as relações de dominância e subserviência. Tais relações estruturam tal comunidade e seu governo da forma que lhe é mais conveniente.
Partindo do princípio de que não existe sociedade de um homem só, concluímos sem maiores problemas de que a interdependência é condição sine qua non para sobrevivência e perpetuação da espécie humana. Ainda assim a superposição de alguns sobre outros tornou-se discutível.
Compreendendo que uma relação onde existe a subserviência, sem que haja uma mutua correspondência que a anule, não pode ser saudável para o mesmo, podemos afirmar também que não é o melhor tipo de relação. Portanto não é o ideal modelo de comunidade ou sociedade..
Como haveria de conceitos individualizantes, egocentralizantes solaparem tal interdependência é algo que buscamos compreender. Mas o que podemos afirmar é que em uma sociedade já estruturada, todos seus componentes convergem para o interesse daqueles que a estruturaram.
As ideias dominantes de uma sociedade são as ideias da classe dominante.
Para o bem ou para o mal o homem foi (e ainda é) inicialmente regido com muito mais intensidade pelos seus desejos e prazeres imediatos do que pela sua razão e moral, tanto porque os dois últimos estão em entendimento e construção contínuos, enquanto os primeiros continuam os mesmos, tão intensos como sempre foram e serão. Talvez esta seja uma explicação razoável do porque sociedades egocêntricas sobrepujaram comunidades comunitárias; o jugo do instinto animal carnal é forte.
De forma que, como explicado acima, somos regidos inicialmente por desejos e prazeres, e a força do individualismo condicionou o comportamento humano, tal que modelos de estruturas sociais que favoreçam alguns em detrimento de outros aparecem como ideais.
Sua reprodução e permanência como modelos ideais se deve a sua enorme competência em naturalizar seus mecanismos de opressão. Como já afirmamos, somos inexoravelmente interdependentes, e nenhuma relação de subserviência sem reciprocidade similar é saudável para qualquer indivíduo, logo não é saudável para nenhuma base social. Portanto, algum mecanismo sobrepuja tais entendimentos, a saber, a naturalização das arbitrariedades. Por tal mecanismo, inúmeros atributos favoráveis ao egocentrismo, ao individualismo, e a formas de produção opressoras, foram naturalizados, como que legitimando o comportamento daqueles que no topo chegaram primeiro. Dessa forma seu poder se perpetua.
O enfrentamento a tal domínio é dificultoso, visto que a sociedade como um todo é estruturada segundo os interesses daqueles que dominam os meios de produção. Assim como o governo desta sociedade, ou mesmo as demais instituições, entre escolas, igrejas, cultura e até mesmo a célula mais básica de sobrevivência humana, a família. O uso da estrutura social contra seu criador é uma remada rio acima.
O fato do trabalho ser apenas um dos aspectos da vida humana faz o seu significado menos relevante, e a afirmação de que a sociabilidade se resumiria às relações de produção parece demasiado forçoso. Mas eis a explicação. Tal relação é indissociável da construção sociológica humana, logo, ela deveria se dar da maneira mais abrangente possível, e não excludente como o modelo então vigente.
Em resumo, mudemos a forma pela qual se dão as relações de produção que mudaremos a estrutura social. Nisto incluímos mais do que a materialidade da mesma, mas também toda a gama de conceitos e condicionantes.
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