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Mostrando postagens de 2017

"Ser" e "Não Ser"

Numerosas são as vezes em que nego interferência relevante das características inatas nas capacidades deliberativa e atuante dos homens. Tantas vezes mais coloco sobre o meio a responsabilidade por tais construções cognitivas, materiais e psicológicas. Mas para que essa trajetória materialista não mine integralmente nossa individualidade psíquica e espiritual, o que, aliás, não o faz, sou obrigado a reconhecer a existência, a priori, daquilo que somos hoje, porém com uma correção nesse entendimento: existência, a priori, daquilo que podemos vir a ser. Onde essa correção interfere? Ela nos dá a possibilidade de aceitar características inatas, naturais, mas ainda assim coloca sobre o meio a responsabilidade por selecionar tais características. Não tenho motivos lógicos ou metafísicos para sugerir uma diferenciação na essência humana, logo, somos todos originados da mesma essência que carrega em si todo o potencial do ser e do fazer. Não há julgamento, ético ou moral, sobre a...

Ensaio Sobre a Mentira

Sócrates já refutara Céfalo, na República, sobre seu conceito de justiça, que seria, também, o não mentir; a refutação daquele consistira basicamente na afirmação de que existem situações em que a mentira cumpre uma função benigna, ainda que isso não qualificasse propriamente o conceito de justiça. Mas tal observação não enfatiza a inexorável necessidade da mentira para existência da coesão social, ou seja, para a própria sobrevivência da sociedade. Na obra de Marcel Mauss, Ensaio Sobre a Dádiva, ele estuda o comportamento ritualístico da troca de presentes entre as tribos e seu significado sócio-estrutural. Marcel nos mostra como o ritual, independente da real intenção dos participantes, mantém a coesão social entre as tribos, e sua perpetuação, através da obrigatoriedade de dar um presente, assim como sobre o recebedor em restituir outro. Esse escambo vai muito além de trocas físicas; ele abrange todos os âmbitos da psique humana e dá condições para que se dê a sociabilidade...

Especulações

Das Benesses do Capitalismo 1 Seriam todas as consequências positivas deste modelo específico de produção, suficientes para compensar as negativas? Antes de responder essa questão com propostas de sistemas diversos e enveredarmos para uma discussão sem fim, outras perguntas se fazem necessárias: por que entendemos as consequências positivas como tal? devemos nos manter na linha utilitarista sem adequar nossos parâmetros? Seria tal sistema o reflexo da essência humana? Entre muitas outras possíveis. Quando alguém afirma as benesses do capitalismo ela obrigatoriamente aceita as formas pelas quais tal sistema se sustenta e as produz; e mais, ela reforça a necessidade das discrepâncias inerentes para tal sustentação. Ou seja, para felicitar os efeitos positivos, necessariamente aceita-se, e julga-se inextrincável, a exploração de muitos por poucos. De fato, comparando a produção capitalista com o antigo regime de produção, ele certamente parece bom, em especial no toc...

Resenha – Platão – A República

editado 21/10/17 A República – Platão A obra em questão tem por finalidade principal a descrição do Estado Ideal. Esse projeto se dá, através de vários diálogos com Sócrates e alguns amigos, em uma visita a qual o mesmo é intimado. O tema e a idéia principal são construídos a cada rodada de argumentos e refutações que se iniciam deforma bastante simples e evoluem a temas e argumentações mais complexas. Serão colocadas, resumidamente, as teses e as respostas de Sócrates, visto que os diálogos se estendem a vários pormenores de possibilidades retóricas.  - Teses e Refutações Dirigindo-se a Céfalo, o dono da residência a qual visitava, Sócrates pergunta-lhe o que seria a justiça para aquele. O qual responde “nunca mentir e pagar o que se deve”. A isto é respondido por Platão, através de Sócrates, que mentir pode vir a ser necessário, mesmo que seja para não magoar alguém (e não precisamos mentir sobre isso, todos sabemos que as pequenas mentiras são o liame da sociabi...

Do Homem

A Autonomia do Inconsciente Estudos científicos apontam que mais de 90% das ações humanas são processadas inconscientemente. Ou seja, ações e escolhas que acreditamos fazê-las conscientemente na realidade já foram processadas no inconsciente, considerando para tal uma gama de informações que já compunham nosso arcabouço informativo. Essa proporção supri as necessidades de sobrevivência do homem, visto que não seríamos capazes de executar tudo o que executamos se tivéssemos que dar integral atenção para cada ação. Ainda que não notemos, todos os sentidos estão em alerta para os sinais emitidos pelo ambiente. Se pensarmos na infinidade de movimentos, conversas, atitudes, reflexos, olhares, etc; perceberemos a real importância da autonomia do inconsciente. Muito além de uma "mecanização", temos a realização prática e teórica de tudo aquilo que compõe nossa essência. Portanto, é de suma importância compreender como se constitui tal banco de dados. A construção do Inc...

Teleologia do Ensino

Há muito fomos enganados pela oferta do ensino tradicional concomitante ao técnico e eis que se apresenta novamente aberração semelhante. E se você aí, cidadão de bem, acha que a função primordial do ensino é o preparo para o trabalho, saiba que está equivocado. A teleologia pura do ensino tem por escopo a dialética, a maiêutica, a evolução espiritual, conteúdo avesso à retórica, aos sofismas e oratórias efusivas.  O exercício da profissão deve ser mero resultado do ensino propedêutico de qualidade; porém o uso do ensino satisfaz interesses do cume da pirâmide, e a oferta dos mesmos toma forma nos vários tipos de empregos medíocres e subvalorizados.  Para tal, se faz necessário, que a oferta de mão de obra seja enorme, garantindo o salário mínimo possível, e que a mesma mão de obra seja apenas suficientemente educada para cumprir com as necessidades minimas destes empregos, mas jamais pensar além do necessário. Marcenaria, usinagem, contabilidade básica, entre...

Mais do Mesmo

A superficialidade com a qual os vários temas possíveis são tratados é gritante. Quase ninguém vê que opiniões sobre a ponta do iceberg ou as ramificações do topo da árvore estão longes da base ou das raízes dos problemas.  Para as questões de violência: glorificação do armamento do cidadão de bem, redução da maioridade penal, pena de morte, caça as bruxas dos direitos humanos e o linchamento são exemplos da bizarrice pseudo-argumentativa reinante. A maioria não sabe as origens dos problemas mas pensam saber resolve-los com medidas enérgicas de saneamento social. Convenientemente, saneamento do social ao qual não pertencem.  Eis o coice da mula, ou do revolver. Eis o tiro no próprio pé que se dão os cientistas de sofá e novela; ou muito pior, gente que deveria ser bem entendida reproduzindo subjetivismos como se fossem estudos comprovados.  É compreensível, pra não dizer aceitável, que aqueles que se beneficiam desse comportamento o fomentem ainda mais, mas é...

Da Evolução Moral

Da observação histórica do desenvolvimento humano, suas relações e conflitos, tendemos a crer que realmente estamos em um processo de evolução no que diz respeito às noções entre certo e errado universais, e desta forma estaríamos no rumo da evolução moral indispensável ao homem. Assim eu também gostaria de pensar, mas tal gradualismo me parece tão conveniente quanto muitas outras proposições naturalizantes neste processo de evolução da humanidade. Um exemplo de concepção moralizantes da contemporaneidade está focada no combate a alimentação e consumo de origem animal; Arthur Schopenhaeur, no Sec. XVII já expressara uma visão semelhante, "A compaixão pelos animais está intimamente ligada a bondade de caráter, e quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem". Outro exemplo, a igualdade de gêneros já existiu na pré-história, sendo desvirtuada ao longo do tempo pela dominação masculina. Ou seja, não há combates novos, mas apenas velhas questões. Essa crença de q...

Expectativa x Realidade

Escolhendo apenas uma entre as várias outras variáveis cujo conflito em análise se apresenta: tratemos das penitenciárias. Suprimindo a essência do real motivo existencial das penitenciárias, tratarei, até certo ponto, exclusivamente do sentido teleológico em confronto com o seu uso, realizado pelo governo e sociedade. De modo sucinto, as penitenciárias tem por objetivos: punição, reintegração, mas principalmente remição do individuo frente a sociedade, principalmente porque a influência da mesma sobre o homem, ex ante e ex post ao crime é determinante. No entanto, as penitenciárias servem à sociedade como mecanismos de realização da vingança transvestida de justiça. Nelas os transgressores apenas degeneram ainda mais seus corpos e espíritos. As penitenciárias são apenas uma dentre tantas outras variáveis que compõem nossa estrutura social e que são utilizadas para fins diferentes daqueles teleologicamente estipulados. Enfim, confunde-se o entendimento das raízes d...