Dichavando o Escola Sem Partido

Pelo pouco discurso dos defensores do projeto “Escola Sem Partido”, deduzimos e respondemos: 

1 – Que ao professor não cabe educar, mas apenas ensinar estritamente sua disciplina. 

Respondemos: primeiramente esse princípio funda-se em uma dicotomia entre âmbito privado e âmbito social. Essa separação entre individuo e sociedade não existe. O tempo todo somos sujeitos sociais. Não é possível separar a práxis da teoria que a funda, portanto não há como deixar de atender às demandas pessoas (e sociais) levadas pelos alunos, nem contribuir com seu ensino, sem também educá-los. Sem recorrer, não apenas ao conhecimento, mas aos valores que subjazem esse conhecimento, não é possível escola alguma. Exceto as escolas técnicas que não ensinam, mas programam muito bem. Povo obediente, povo servil. Técnica sem essência é um cabresto bem vestido. Em segundo lugar, qualquer disciplina transcende os limites dela própria enquanto ferramenta de promoção de inteligibilidade social. Não é possível restringir uma ferramenta desta quando a condição da própria existência dela seja sujeitá-la às discussões transversais. 

2 – Que o papel do professor restringe-se a preparar o aluno para o mercado de trabalho. 

Respondemos: alem de se tratar de discurso liberal de interesses economicistas, ele se pauta pelo erro supracitado e soma-se à incompreensão do papel do docente. Não é papel do professor tornar seus alunos peças sobressalentes para o mercado de trabalho. A profissionalização é RESULTADO de deliberações críticas sobre expectativas profissionais, portanto, mera conseqüência do processo de ensino. Coibir o desenvolvimento da capacidade crítica é limitar ainda mais o leque de opção profissional. A sociedade não deve servir ao mercado, é o mercado que deve servir a sociedade. Logo, o papel do professor é abastecer largamente o arcabouço informativo dos alunos, e dar-lhes fermentas para construírem o saber a partir disso. 

3 – Que o ensino não deve afrontar os princípios religiosos vigentes. 

Respondemos: posto que vivemos em um país que se diz laico, nenhuma religião deve ser excluída da escola. Mas também nenhuma delas deve aparecer na escola enquanto dogma imposto; todas devem ser estudadas pelo viés teológico, além do cristianismo. Ou seja, a sua importância enquanto variável determinista imprescindível na trajetória histórica do homem, pede que essa variedade religiosa seja estudada pela perspectiva das suas influências na estrutura social. 

4 – Que o ensino sobre gênero é subversivo à natureza e, portanto, não deve ser tratado na escola. 

Respondemos: essa perspectiva já nos revela fundamentos conservadores potencialmente religiosos, revestidos de pseudociência, que busca fundamentos naturais para se legitimar. A abordagem que deve ser realizada nas escolas não versa sobre preferências sexuais, mas sobre a necessidade de compreender a perspectiva do outro; em especial daqueles que sentem em si uma incompatibilidade fisiológica e espiritual. Aqui podemos encontrar os princípios religiosos ou pseudocientíficos tentando negar ou explicar esse sentimento. Mas a ciência não explica, apenas descreve, portanto, não tem condições de explicar a consciência enquanto força vital que anima o homem, assim como as religiões que partem dos discursos axiomáticos não o fazem sem sujeitá-la às suas “verdades”. De fato, a natureza estipula o macho e a fêmea, mas os problemas de homofobia e misoginia emanam da tentativa de naturalizar um conceito sociológico de macho e fêmea. Donde emanam os estereótipos hierarquizados. 

5 – Que o ensino sobre as culturas e as artes diversas compreende valores particulares, não competindo ao professor deturpá-los. 

Respondemos: A compreensão da diversidade cultural é a compreensão da perspectiva do outro. É a “perspectiva ampliada” que dá condições para a empatia. Toda a base do racismo se funda no afastamento do outro enquanto indivíduo igual. É necessário compreender a trajetória histórica dos povos, e no nosso caso, dos negros, para compreender o significa do racismo. Para entender que qualquer coisa que se faça está longe de saldar a dívida histórica no qual o sucesso do branco se consolidou. Longe de ser o “discurso de vítima” é o discurso da realidade material, da desigualdade social, racial. 

Posto isto, cabem ressalvas. 

Não pretendo afirmar que o ensino está bom, nem que não haja oportunistas de qualquer lado. Mas o importante é apontar a real discussão a ser feita, a saber, como melhorar o que já temos, não reduzindo conhecimento, mas aperfeiçoando o conteúdo e a metodologia. 

Mesmo hoje posso afirmar que o sistema de ensino cumpre com uma agenda liberal. Pois o ensino sucateado como está realiza bem a segregação entre nichos profissionais. Aos alunos de escola pública, majoritariamente ficam reservados os trabalhos menos significativos simbólica e financeiramente, mesmo que sejam de suma importância para o sistema econômico. Enquanto aos alunos das escolas particulares reservam-se os empregos de evidência social e financeira. Portanto, é evidente que devemos discutir sobre educação, mas jamais como cerceá-la, mas sempre como corrigi-la nos seus defeitos, contribuindo com seus fins. Libertar o homem do homem.

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