Ágora Brasileira

O local de maior exercício da retórica ateniense, da cidadania grega residiu na Ágora. O local onde se teceram sofismas, onde a arte de discursar e influenciar os demais sempre importou mais do que a verdade das coisas em si.

O palco de exercício similar no Brasil são as redes sociais - em especial. De fato, a impessoalidade e segurança oferecidas pela internet, deram voz aqueles que deveriam permanecer calados. A diferença essencial entre a retorica ateniense e o que tem acontecido aqui reside na qualidade dos discursos; os sofistas ao menos dominavam a “arte” da retórica. Já nos brasileiros a coisa mais perceptível, na maioria das discussões, é o desejo de ganhar o "duelo" a qualquer custo. Abandona-se o conhecimento das origens do problema, utiliza-se somente uma pseudo – lógica matemática, uma espécie de equação compensatória, onde se indivíduo X agiu de tal forma, aceita-se que outros também o façam.

As pessoas não estão interessadas na verdade em si, porque ela não é nem agradável, nem fácil de obter. As pessoas apenas querem colocar suas opiniões sobre as dos demais, sem necessariamente conhecer as origens do próprio ponto de vista. Não há argumentação fundamentada em processos históricos, sociais, culturais, etc; há apenas emissões baseadas na experiência de vida imediata, e principalmente na subjetividade. Não há defesa de uma ideia independente do indivíduo, é sempre o oposto, a defesa da ideia fundamenta-se exclusivamente em si, pura subjetividade. Desconhecem o sistema eleitoral, os candidatos, os limites jurídicos das capacidades dos mesmos; desconhecem o funcionamento e organização do sistema contábil, orçamentário e financeiro do município, estado e federação; desconhecem a si próprias, os condicionantes materiais e psicológicos da sua própria constituição.

O conceito de ágora brasileira faz jus exatamente ao que acontece no país. Um empobrecimento da capacidade argumentativa através da tentativa de convencimento dos demais com o exercício do discurso, porém com argumentos pífios, limitados, sem fundamentos teórico ou prático, sem razão ou empirismo suficientemente comprovado, e principalmente sem interesse na verdade dos fatos, da história e das consequências de modo geral. O que importa é apenas ganhar mais palmas, curtidas ou ovacionadas.

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