Marxismo Cultural


O termo marxismo cultural já há algum tempo vem fazendo parte dos discursos de várias personalidades da política, do mundo artístico, e largamente reproduzido nas redes sociais. A ideia fundamental por trás desse discurso afirma que há no ensino público e em algumas expressões artísticas uma forma de doutrinação de caráter marxista, que intentaria inculcar os valores da esquerda.
Pensando em verificar o fundamento e a intenção por trás desse discurso, vamos, primeiramente, analisar o termo em si e, posteriormente, levantar algumas hipóteses sobre a quem interessa tal discurso. Para melhor compreendermos vamos abrir e explanar os dois termos separadamente, realizando posteriormente sua síntese, e somente então analisando o potencial de verdade do fenômeno, aproveitando o resultado para inquirirmos a quem sua exortação interessa.
Comecemos pelo primeiro termo; o marxismo se refere ao conjunto de teorias e análises desenvolvidas por vários autores, que tem por ponto de partida os textos de Karl Marx. Há uma separação entre autores que trabalham o pensamento original deste autor, esta corrente é conhecida como marxiana, e há o outro grupo, que inicialmente referidos em Marx, desenvolveram suas próprias teorias.
Todavia alguns elementos dessas teorias são inexoráveis, de modo a fazer parte de base de todas elas; em especial podemos frisar o conflito imanente[1] ao capitalismo, a relação antagônica entre capital e trabalho. Essa ideia afirma, contrariando o pensamento econômico clássico smithiano[2], que no capitalismo não há ou haverá harmonia entre os interesses daqueles que possuem os meios de produção e aqueles que somente possuem a própria força de trabalho. Somamos a esta característica aquela que afirma que a superestrutura é um produto da infraestrutura, isto é, que as relações materiais de produção definem o arranjo ideológico, religioso e institucional; ou seja, na estrutura e na forma do governo, da sociedade e das ideias que a permeiam, há o determinismo das formas de disposição dos meios de produção. Como pedra de toque há o método marxista de análise histórica e social dos fenômenos, a saber, o materialismo histórico[3]. Há muito mais a se dizer sobre o pensamento marxista, todavia, importa conhecer alguns elementos para o que nos interessa aqui.
No que diz respeito à Cultura, podemos pensá-la como um conjunto de características físicas, psicológicas e comportamentais que singularizam determinados grupos. Podemos ainda dizer que ela é o resultado daquilo que os homens podem compreender em função dos sentidos e significados que os valores dão causa[4]. No recorte que nos importa aqui, Cultura aparece como um conjunto de expressões teóricas, práticas e valorativas que singulariza um grupo.
A síntese Marxismo Cultural, então, sugere a existência de um conjunto de práticas, teorias e valores, que encontram reduto no pensamento marxista e se singulariza enquanto expressão deste.
No geral, a ideia em questão não difere do conceito de ideologia[5], portanto, em si não implicando em prejuízo, visto ser ela uma entre outras possíveis. O que alguns grupos apontam como problemático seria o fato de haver uma imposição através da arte e, especialmente, através do ensino público, desta ideologia; em termos banalizados, preocupam-se com uma doutrinação.
Sem entrar no mérito da análise da teoria marxista, analisemos apenas a hipótese levantada: que seria a doutrinação baseada no marxismo cultural perpetrada pelas instituições de ensino e pela arte. Foquemos de imediato no ensino público.
Comecemos pela proposta, ao menos teórica, do ensino, que é fomentar o pensamento crítico. Considerando o significado da palavra doutrinação, que é “ato ou efeito de doutrinar”, isto é, “instruir nos princípios de alguma doutrina ou ideia, catequizar”; fundamentalmente o conceito pressupõe a impossibilidade da crítica. Se a proposta é fundamentar o pensamento crítico, não há como realizar a doutrinação, uma coisa exclui a outra.
Alguém poderia dizer que a prática difere da teoria e, factualmente o faz, posto que um conjunto de dificuldades referente ao âmbito da sociedade, da economia e da política, interfere diretamente na realização do projeto pedagógico[6]. Novamente, pensando o sentido da doutrinação, a valorização dos seus representantes e a apresentação das suas ideias são patentes; todavia, se considerarmos as dificuldades que as instituições escolares encontram para realizar o básico do ensino(vide nota 6), torna-se muito dificultoso pensar como se realizaria um projeto mais complexo de doutrinação.
Falar sobre desigualdade não remete obrigatoriamente ao marxismo, pois inúmeros autores liberais tratam da desigualdade; evidentemente lhes dão gêneses e tratamentos diferentes, mas nem por isso deixam de abordar tal tema, em alguns casos de maneira absolutamente relevante[7].
Outro fator a se observar é o uso instrumental do ensino. Notoriamente exorta-se à educação em função da necessidade de se trabalhar ao fim do seu percurso. A função nobre, que é o fomento ao pensamento crítico é secundarizado diante da formação para o mercado de trabalho. Como dissemos noutro texto, sempre há uma ideologia, então, perguntamos, se o marxismo fundamentalmente ressalta o conflito entre capital e trabalho, porque toda a formação é direcionada para o trabalho? Por que, como nos diz Bourdieu, a escola contribui mais para reforçar as desigualdades do que eliminá-las? Não nos parece comum o discurso da competição, seja nas avaliações escolares, nas premiações e odes aos “mais aptos”? Qual é o conjunto de ideias em que tais comportamentos parecem melhor se adequar? Essa resposta, pensamos, é a que fundamenta a ideologia por trás, não só da estrutura de ensino, mas da estrutural social e das instituições governamentais como um todo. Nos parece, portanto, difícil conciliar enquanto hegemônicas duas ideologias conflitantes.
Soma-se a tudo isso que o método do materialismo histórico não é uma prática subjetiva de análise, mas um mecanismo que pretende justamente eliminar essa subjetividade, observando e analisando os fatos considerando um princípio de causalidade circunscrito no tempo e no espaço, ou seja, cada ocorrência só se dera porque foi possibilitada por uma convergência de fatores interligados.
Para não estendermos muito mais o assunto, concluímos que a alegação de que há um marxismo cultural, só é verdade na medida em que há uma ideologia marxista, como há uma liberal, uma conservadora, e várias outras, puras e híbridas; todavia, a afirmação de que essa ideologia está sendo imposta aos alunos, que está havendo uma doutrinação marxista, não há como sustentar tais afirmações. E, por fim, ressaltamos que esse discurso tem por interessados justamente as ideologias pró-mercadológicas, pois se ressentem do ensino voltado para o pensamento crítico e a ameaça que isso gera às suas bases materiais de reprodução capitalista.




[1] Que está inseparavelmente contido na natureza de um ser ou de um objeto.
[2] Adam Smith, em sua Obra, Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, descreve em sua ótica como que a realização do interesse individual contribui para o conjunto.
[3] O materialismo histórico propriamente não é uma criação de Marx; sempre houve investigadores materialistas, os empiristas, todavia, a dialética marxista é uma análise empírica que se baseia no elo de causalidade inexorável entre os fenômenos, de modo que historiografias poutadas no materialismo histórico marxista baseiam seus relatos na análise dos fenômenos considerando suas limitações geográfica e histórica, divergindo daqueles historiadores que apenas se usam de documentos de indivíduos que descrevem subjetivamente o seu tempo.
[4] A “objetividade” do conhecimento nas ciências sociais, pág. 58: Cultura para Weber é “um segmento finito do decurso infinito e destituído de sentido próprio do mundo, a que o pensamento conferiu – do ponto de vista do homem – um sentido e uma significação”.
[5] Ver o texto “o problema da ideologia oculta no discurso da não-ideologia”, nesta mesma página.
[6] Pensando em Pierre Bourdieu e na discrepância dos capitais simbólico, cultural, econômico e social, e os problemas decorrentes deles.
[7] Amartya Sen, que já foi membro da presidência do Banco Central, ganhador do Nobel em economia, um representante do pensamento liberal, em sua obra Desenvolvimento Como Liberdade, explana como o conjunto de privações materiais e culturais (que são elementos indispensáveis para a objetivação da liberdade individual), além das desigualdades no tocante ao gênero e cor, compromete o desenvolvimento econômico. E até mesmo Adam Smith e John Stuart Mill fazem apontamentos sobre o problema da desigualdade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dos Pré-Socráticos a Platão: Ruptura, Caos e Nascimento

Resenha: O 18 Brumário de Luís Bonaparte

A República - Platão - Resenha atualizada