O Conceito de Cultura Como Conceito de Valor
A
cultura é a manifestação por excelência da ação social. Esta ação é a expressão
do agir humano individualmente realizado mediante certo conjunto de formas de
existência – formas de objetivação – que, motivado subjetivamente, tenha os
mesmos sentido e significação também para os demais, em suas dimensões moral,
ética, religiosa, emotiva, cognitiva, política, econômica e epistemológica;
isto é, os indivíduos agem socialmente e essas ações são dadas mediante o
sentido que lhe atribui o conjunto, em determinado contexto e conjuntura, em
que tal miríade de ações manifesta-se na cultura. A ação social não é,
portanto, qualquer ação, mas aquela que tem por fundamento um sentido que seja
coletivamente apreensível; tais ações constituem as relações sociais de toda
sociedade em determinado momento e também enquanto um processo, como afirma
Freund: “efetivamente, o desenvolvimento de uma relação social se explica
igualmente pelas intenções que nela põe o ser humano, os interesses que nela
encontra e o sentido diferente que lhe atribui no curso do tempo” [1].
As
supracitadas dimensões delimitadoras da ação social estão fundadas em valores
com historicidade e realidade empírica factual que possuem caráter lógico, e
são coletivamente instituídos, ou seja, estão circunscritos no tempo e no
espaço geográfico, expressando conotações subjetivas, normativas, imperativas,
autônomas; influenciando o agir através do determinismo do desejável, do
intencionado, do aspirado, tal qual determinando os modos de ação e os fins
idealizados. Consideram-se os valores, então, enquanto categorias do
entendimento, de avaliação, compreensão e nomeação, do mundo, da realidade e da
história; Os valores são, portanto, as referências gerais para o agir social.
Na
medida em que a cultura é a manifestação por excelência da ação social, e esta
seja expressão dos sentidos e significação cultural delimitada pelos valores
coletivamente fundados – circunscritos no tempo e no espaço –, por silogismo, a
cultura se expressa em função dos valores. É por isso que o conceito de cultura,
enquanto “um segmento finito do decurso infinito e destituído de sentido
próprio do mundo, a que o pensamento conferiu – do ponto de vista do homem – um
sentido e uma significação” [2], é
um conceito de valor. Noutras palavras, a cultura, enquanto realidade empírica,
“abrange aqueles, e somente aqueles, componentes da realidade que, por meio
desta relação [cultura ↔ valor], tornam-se significativos para nós” [3].
Portanto, a realidade empírica, ou a cultura, somente “tem significado para nós
precisamente porque revela relações tornadas importantes graças à sua
vinculação à ideias de valor” [4].
A
cientificidade desta relação depreende-se da sociologia compreensiva, que tem
por sentido fundamental a compreensão do agir social. Seu objeto se manifesta
na realidade empírica enquanto um segmento delimitado extraído de outro mais
amplo, ilimitado e que tem sua dimensão inapreensível; essa fração desta
totalidade se dá mediante o sentido e a
significação cultural – delimitados historicamente – e se objetiva na cultura.
Considerando
a natureza fugaz dos valores, isto é, a natural tendência para que variem com o
passar do tempo de acordo com as mudanças materiais e espirituais que perpassam
pela história humana ao longo do processo civilizatório, é consequência lógica
que a ação social tenha variado na mesma proporção; isto é, os motivos das
ações individuais se alteram na medida em que o sentido que elas poderiam ter
tenha variado, o que leva à mudança da própria cultura em si.
O
que Weber desenvolve a partir dessa premissa, e pautado no seu método de
elaboração de tipos ideais – que será discutido mais adiante – é a formulação
de quatro tipos puros de ação social; isto é, aponta quatro períodos do
desenvolvimento histórico em que o sentido adquirira conotações específicas que
conduziram a ação individual mediante estes sentidos. A ação tradicional,
típicas das comunidades, remete a condutas baseadas em hábitos enraizados na
tradição e perpetuados pelo ethos e
pela forte presença da religião; a ação afetiva remete àquelas dadas em função
das paixões como o medo, o desejo, o carinho, o amor, o ódio, etc.; a ação
racional pautada nos valores tem por fundamento valores variados, como moralidade,
religiosidade, honestidade, castidade, etc.; e, last but not the least, a ação racional pautada nos fins, que tem
por critério fundamental a racionalidade instrumentalizada para satisfação de
necessidades econômicas, políticas, culturais, alimentares, intelectuais,
enfim, toda uma gama de desejos típicos da sociedade moderna cuja
característica essencial é a mercantilização de absolutamente tudo.
A
sociologia compreensiva, na medida em que tem por objeto a ação social, deve
ater-se aos fatos objetivos, buscando a redução de sua complexidade,
selecionando do “formidável oceano de fatos empíricos” constituído por um contínuum heterogêneo[5],
aqueles fenômenos de maior sentido e significação que suscitem interesse
científico. Essa fragmentação que tem por objetivo primário a redução da
multiplicidade extensiva e intensiva da realidade, o faz pautado no método de
dissolução e decomposição do objeto, para que se efetuem as experiências
necessárias – estabelecimento de nexos causas sujeitos a nomologia[6] –
e, posteriormente, a recomposição deste ordenando-o e esclarecendo o seu sentido,
isto é, da ação social. Ao contrário do que poderia parecer de imediato, a
subjetividade do pesquisador não é um problema, mas é conditio sine qua non da existência da própria ciência; a
curiosidade, o desafio do sapere aude,
são os leitmotiven da ação
científica; como se lê na introdução da “objetividade”[7],
“não faz sentido pensar em pesquisa social sem um impulso de interesse
arraigado na sociedade”[8],
ou seja, mais do que uma utilidade ela precisa ter um sentido de objetivação. Contudo,
essa subjetividade deve ser suprimida imediatamente à seleção desses elementos
e a aplicação do método e das experiências laboratoriais, como se evidencia
nesta outra citação:
Não há, pois, ciência social par Weber
sem referência a valores que conduzam o interesse do cientista àquilo que se
revelará para ele, por isso, será dotada de significação; nada há, igualmente,
de ciência se a pesquisa não deixar para traz as referências valorativas que o
guiavam no início[9].
O
que se segue ao processo de fragmentação e seleção dos elementos da realidade
empírica é um processo de comparação destes com aquilo que Weber chamou de tipo
ideal. Esse tipo não leva o nome de ideal no sentido de normativamente melhor
do que algum outro, mas apenas por tratar-se de uma utopia, uma idealidade, um
exemplo de um fenômeno com características típicas que o singularizam
idealmente no tempo e no espaço, de forma a tornar-se uma referência
comparativa que será confrontada com aquelas que foram extraídas anteriormente.
Como
citado acima, as ações puras são um exemplo de tipos ideais; são descrições utópicas
de certas ações sociais – ou seja, dotadas de sentido e significação – que
existem em sociedades com características muito demarcadas, quais servirão como
parâmetro para analisar as ações sociais empíricas que poderão se aproximar mais
ou menos desses modelos, de modo a qualificarem-se ou não como representantes
desse tipo ideal. Uma vez selecionados os elementos a serem analisados, ou
seja, aqueles que despertaram interesse científico, o pesquisador realiza o
processo de imputação, isto é, para descobrir quais variáveis são mais
relevantes para o fenômeno ele faz-se a seguinte questão: para quais variáveis
aquela ação analisada interessa? E tanto as imputações como a seleção dos
elementos significativos a serem analisadas se dão considerando a nomologia, a regularidade.
Em
síntese, o conceito de cultura é um conceito de valor porque os valores são os
elementos responsáveis pela definição do sentido e significação cultural que
recortará da totalidade e do devir aquilo que é compreensível naquele momento
histórico e naquelas condições sociais dadas e que se manifestam na cultura. A
sociologia compreensiva, por sua vez, tem por escopo de estudo justamente essa
cultura, que nada mais é do que a manifestação da ação social; tal análise se
dá fundamentalmente pelo método da instituição e comparação dos tipos ideias
com aquele recorte realizado pelo cientista, respeitando a nomologia, e as etapas de observação, compreensão, interpretação,
analisando e ordenando esse processo para efetuar a explicação dos fenômenos;
nas palavras de Weber a “sociologia...significa: uma ciência que pretende
compreender interpretativamente a ação social e assim explica-la causalmente em
seu curso e em seus efeitos”[10]
[1] FREUND, J. Sociologia de Max
Weber, pág. 68.
[2] WEBER, M. A “objetividade” do
conhecimento nas ciências sociais, pág. 58.
[3] WEBER, M. A “objetividade” do
conhecimento nas ciências sociais. [Inserção minha], pág. 50-1.
[4] Ibid., pág. 51.
[5] Diz respeito àquela atemporal e
ininterrupta multiplicidade fenomenológica constituinte da realidade não só
presente, mas a passada e a futura em potencial, da qual o cientista deve
extrair certos fenômenos significativos do ponto de vista científico para que
seja estudado.
[6] A nomologia tem por essência a
percepção das regularidades dos fenômenos, de modo a estimar que, sob condições
mais ou menos próximas, se repetirão os resultados.
[7] Referência ao termo da obra: A
“objetividade” do conhecimento nas ciências sociais.
[8] WEBER, M. A “objetividade” do
conhecimento nas ciências sociais, pág. 11.
[9] Ibid., pág. 12.
[10] WEBER, M. Economia e Sociedade, pág.
03.
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