Análises Dialéticas


Dialética é movimento, é existência; elementos correlatos, pois nada é desde sempre, mas tudo vem a ser a partir de encontros, de um convergir de acidentes que se manifestam em existência, e esta propriamente não existe por si só, mas somente dentro de relações, sendo a combinação de todas elas o que perfaz a totalidade; tudo é um permanente devir compreendido, exclusivamente, dentro das próprias contradições. Uma análise dialética, portanto, é uma pesquisa de como algo vem a ser, uma busca pelos elementos que convergem e se objetivam naquela existência particular; uma apreensão do conhecimento transitório e ascendente que subjaz a transformação contida no movimento histórico.
A comparação da dialética hegeliana com a marxista evidencia a origem do movimento histórico-dialético contida em cada um deles. No caso de Hegel, é uma razão maior, um espirito absoluto que permeia e conduz o movimento manifesto na historicidade na qual o homem está inserido e é sujeito passivo, Em Marx, o movimento está contido na historicidade da qual o homem é protagonista atuando através daquilo que ele produz, pois “produzindo seus meios de vida, os homens produzem, indiretamente, sua própria vida material.” [1]. Logo, o que os indivíduos são, no caso de Hegel, depende do espirito que permeia e sustenta a historicidade, já no caso de Marx, “o que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção” [2].
A dialética hegeliana possui uma característica de completude quanto à compreensão, ou seja, através da ontologia[3] busca-se uma explicação para as coisas e para o homem em seu aspecto holístico. Porém, essa totalidade é composta por elementos contraditórios, e é dessas contradições que emergem a existência e a realidade; ainda, para Hegel, o mundo é o que os homens constatam dele, simultaneamente que são condicionados para entendê-lo enquanto tal[4]. E são essas contradições, também, que configuram o caráter negativo da realidade.
Marx também retira esse caráter negativo das contradições, porém de uma forma mais específica e não abstrata[5], a saber, dos conflitos de classes. Mas para chegar a essa conclusão, é preciso passar pelas abstrações que emanam do sistema capitalista, quais sustentam, como um organismo vivo, um conjunto de leis “naturais” de tal sistema. Como diz Marcuse: “o mundo das mercadorias é um mundo ‘falsificado’ e ‘mistificado’, e a análise crítica deste mundo deve começar por acompanhar as abstrações que o constituem devendo, pois, partir destas relações abstratas para atingir o seu conteúdo real” (p.286), ou seja, se faz necessário extrair o que está por traz do fetichismo constituinte da sociedade capitalista, as condições reais que são seus sustentáculos.
O diferencial das dialéticas hegeliana e marxista é que na primeira “a totalidade era a totalidade da razão, um sistema ontológico fechado, que acabava por se identificar com o sistema racional da história” (p. 286), ou seja, ainda que haja a evolução espiritual quanto ao conhecimento que galga, a cada superação dos conflitos, uma nova síntese que virá a ser outra tese, esse processo não extrapola a existência possível, especialmente porque ela se dá dentro das relações propriamente; logo, ele permanece dentro de um sistema fechado. Já na dialética marxista essa totalidade é aberta a qualquer realidade possível, desde que as condições materiais determinem os caminhos possíveis, assim, ela restringe-se ao “método histórico”.
Desta forma, conforme Marcuse afirma “todo fato só pode ser submetido à análise dialética na medida em que cada fato é influenciado pelos antagonismos do processo social” (p. 287), o que significa que os fatos sociais[6], ainda que repousem sobre as abstrações reificadas, distantes das suas origens[7], elas são passíveis de uma análise dialética[8]. Por esse motivo que a dialética marxista é circunscrita ao capitalismo, pois é nele que a sociedade de classes subsiste e se reproduz o conflito de classes, e com o seu fim finda também a dialética, pois o “conceito que liga definitivamente a dialética de Marx à história da sociedade de classes é o conceito de necessidade” (p. 289); pode-se dizer que em duplo sentido, necessidade como um conjunto de regras e mecanismos obrigatoriamente realizáveis, desde que o aparato da materialidade social possibilite sua realização, e no sentido que toca ao reino que rege o sistema capitalista, a saber, o reino da necessidade.
O percurso metodológico, portanto, avança além das abstrações imanentes à sociedade de classes, que são os elementos alienantes contidos no processo de produção capitalista, no qual o produto mercadológico emerge como uma entidade autônoma e alheia ao próprio processo, reificado; ele extrai das entranhas da superestrutura os fundamentos deste, os expõem através do desenvolvimento da consciência e do amadurecimento da classe revolucionaria e cria condições de superá-los. Portanto, “a revolução depende verdadeiramente da totalidade das condições objetivas: ela exige que tenha sido alcançado um certo nível de cultura intelectual e material, que haja uma classe operaria autoconsciente e organizada numa escala internacional, que haja aguda luta de classes.” (p.290).
Isso por si só anula qualquer redução da dialética marxista a uma lei necessária no sentido de que a superação do capitalismo seja inevitável, “não há a mínima necessidade natural ou inevitabilidade automática que assegure a transição do capitalismo ao socialismo” (p.290), pois somente o seria em uma condição ceteris paribus, o que não é o caso. Há um conjunto de fatores que quando alcançados desencadearão a superação desse sistema, mas para tal, as condições materiais devem convergir[9].
Sabe-se que algumas superações das condições sociais foram extraídas do capitalismo; e em revelia, algumas dessas melhores condições podem alterar as variáveis da equação, distendendo a opressão capitalista de forma a enfraquecer o espírito revolucionário ou distanciando a superação do sistema vigente. Por isso a “revolução exige o amadurecimento de muitas forças, mas a maior delas é a força subjetiva, isto é, a própria classe revolucionária” (p. 290).
As condições materiais jamais deixarão de agir sobre a consciência do homem, “mas quando estes processos materiais se tiverem tornado racionais, resultando no trabalho concreto dos homens, a dependência cega da consciência às relações sociais terá deixado de existir” (p. 291), ou seja, quando houver consciência e domínio sobre o processo produtivo, a alienação e a reificação não substituirão o protagonismo dos homens, e a superação da sociedade de classes se fará iminente.
Sobre a possibilidade de apreensão desse conhecimento, dessa consciência, na dialética hegeliana ela se dá de cima para baixo, ou seja, o espírito de determinado período manifesto em uma nova síntese faz emergir na consciência dos indivíduos – muitas vezes esse espirito é personificado em figuras eminentes – o movimento na direção da superação do momento histórico, o que possibilita então a apreensão do conhecimento necessário para tal. Na dialética marxista a apreensão do conhecimento é possibilitada pela própria condição material e histórica, logo, o homem cria suas condições de emancipação, superação e manutenção.
É com esse fito que a “meta final desta nova prática social foi formulada: a abolição do trabalho, o emprego de meios socializados de produção para o livre desenvolvimento de todos os indivíduos” (p. 293), após isso os demais aspetos da vida humana são de livre deliberação e fruição.



[1] A Ideologia Alemã, MARX, ENGELS, p. 27, ed Hucitec,1989
[2] A Ideologia Alemã, MARX, ENGELS, p. 28, ed Hucitec,1989
[3] Teoria metafísica do ser. Ramo da filosofia que estuda a natureza do ser, da existência e da própria realidade.
[4] Para Hegel, a capacidade de conhecer se dá exclusivamente dentro da relação do ser com o objeto; opostamente ao pensamento kantiano, no qual eles existem separadamente, o hegeliano afirma não ser possível separá-los, pois a existência se dá mediante a relação do ser com o objeto.
[5] As contradições hegelianas versam sobre toda contradição, posto que ele remete à Heráclito. Segundo essa perspectiva a existência só é possível mediante os contraditórios, de forma que o ser seja delimitado pelo que não é.
[6] Em Durkheim, fatos sociais são aqueles que não são explicados por si mesmos, mas são dependentes de outros que lhes deram causa.
[7] Os processos de trabalho.
[8] Aliás, a dialética é uma condição imanente ao capitalismo, pela característica da mesma e pelo produto do outro (dialética enquanto movimento de transformação social possível somente dentro de contradições, e capitalismo como fomentador de contradições por excelência).
[9] Alto nível da industrialização, da desigualdade social e da consciência de classe.



Herbert Marcuse - texto "A Dialética Marxista" da obra Razão e Revolução

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dos Pré-Socráticos a Platão: Ruptura, Caos e Nascimento

Resenha: O 18 Brumário de Luís Bonaparte

A República - Platão - Resenha atualizada