Resenha - Manifesto do Partido Comunista
Introdução
O
ano de 1848 foi marcado por subsequentes revoluções, A Primavera dos Povos[1], ascendera
os revolucionários ao governo provisório, que lentamente tomava características
conservadoras[2];
esse desvio de conduta culminara com as Jornadas
de Junho, insurreições nas quais inúmeros trabalhadores em protesto
exigindo que suas demandas fossem atendidas, foram massacrados – cerca de três
mil mortos e quinze mil deportados – pela burguesia reacionária que se aliara
aos antigos representantes da aristocracia. Três anos depois, em um processo no
qual conflitaram interesses de Bonaparte, da burguesia e da aristocracia
remanescente, dera-se o golpe que instalara o novo imperialismo sob Luís
Bonaparte.
No
início desse processo, ainda no ano de 1848, em meados de fevereiro, foi
lançado o Manifesto do Partido Comunista, qual trazia como conteúdo uma
explanação resumida do processo de segregação social – burguesia e proletariado
– assim como pretendia elucidar a posição na qual se encontravam todos os
trabalhadores que não eram proprietários dos meios de produção, ou seja,
pretendia fomentar a consciência de classe do proletariado.
Parte
dessa explanação perpassa pelo fato da burguesia, que no importante processo de
derrubada do ancien régime[3], cessara
o processo revolucionário, de sua parte, do momento de sua ascensão ao lugar
ocupado por aquele, ou seja, “a moderna sociedade burguesa, saída do declínio
da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classe. Limitou-se a colocar
novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta, no lugar das
anteriores” (p. 63). Isso pretende afirmar que com a derrubada da monarquia
enquanto forma de governo, e suprimida suas formas de exploração servil e
laboral, não resultara na destruição do status quo vigente, mas apenas uma
substituição de personagens: a burguesia se tornara a exploradora e os demais
trabalhadores, especialmente o proletariado, os explorados.
Nessa
trajetória de ascensão burguesa, uma etapa se faz significativa: a acumulação
primitiva. Iniciada pela retórica e práxis feudal, a burguesia apenas
intensificara, e aperfeiçoara[4]
tal conduta. Ou seja, através de subsequentes apropriações legitimadas pela
hereditariedade, a usurpação de terras comunitárias constituíra a riqueza da
aristocracia medieval; e esta, em virtude do declínio feudal lentamente se transformara,
se adaptando a um novo cenário em que a estrutura social havia mudado em
consequência das mudanças nos meios de produção e nas relações comerciais. É
com essa perspectiva que Marx afirma o que se segue:
O roubo
dos bens da Igreja, a fraudulenta alienação dos domínios do Estado, o furto da
propriedade comunal, a transformação usurpadora e executada com terrorismo
inescrupuloso da propriedade feudal e clâmica em propriedade privada moderna,
foram outros tantos métodos idílicos da acumulação primitiva. Eles conquistaram
o campo para a agricultura capitalista, incorporaram a base fundiária ao
capital e criaram para a indústria urbana a oferta necessária de um proletariado
livre como os pássaros. (MARX, K. Livro Primeiro, Tomo 2, Capitulo XXIV, A
Assim Chamada Acumulação Primitiva)
É
com essa perspectiva que Marx afirma no Manifesto, que a burguesia não
transforma a ordem econômica, mas apenas assume o lugar daqueles que
anteriormente eram os donos do poder. Ela subtrai os vínculos que o homem tinha
com a terra, altera a estrutura social colocando no lugar da estratificação por
castas, hereditariamente ou mesmo divinamente estabelecidas, por uma
estratificação econômica, na qual o mediador principal eram as relações de
produção e o resultado mais evidente era a “exploração seca, direta,
despudorada e aberta” (p. 65).
Mas
a história é movimento, é dialética, e o processo desencadeado pela burguesia,
as mesmas armas da sua ascensão se voltariam contra ela, ou seja, a
transformação da estrutura social em uma dicotomia de interesses divergentes,
pautada na exploração de uma classe por outra, também seria a matriz de um
exército de trabalhadores, que tornar-se-iam conscientes dessa exploração, e
quando tal acontecesse, se daria a revolução de fato.
Origens
Dos Personagens
Porém, para que ela tenha ascendido a tal
estado é fato que muitos dos aspectos precedentes se transformaram.
Inicialmente, o Estado absolutista fora uma condição necessária para a superação
do feudalismo, na qual “houve muita relação entre o desenvolvimento comercial e
econômico europeu e a centralização do poder real” (ARRUDA, Jose, p. 49, 1975),
ou seja, a superação do policentrismo[5]
senhorial, o desenvolvimento de um corpo administrativo efetivo e o delinear de
um Estado se deram pela centralização na persona do rei, logo, “o poder real
cresceu ao mesmo tempo em que progrediu o Estado nacional” (ARRUDA, Jose, p.
61, 1975).
Essa
relação fora mutuamente favorável por certo tempo: as atividades comerciais e
produtivas continuavam a se expandir, os mercados a se ampliar, o aparato
produtivo se aperfeiçoava, a divisão social e profissional se aprofundava, e em
contrapartida o poder do rei tornava-se cada vez maior, e com o tempo começou a
se tornar um empecilho ao contínuo desenvolvimento econômico da burguesia.
As
tentativas do rei de intervir naquilo que para a burguesia era da sua
competência, especialmente no mercado, seja com impostos ou intervenções reais,
fomentara o desentendimento entre ambos. Amparada pela classe inferior, os
trabalhadores, iniciaram-se as investidas contra o poder do absolutismo.
Da
Revolução à Reação
O
que decorre das subsequentes sublevações e do seu sucesso é uma segregação dos
interesses inicialmente comuns; os burgueses, percebendo o potencial
revolucionário da classe que os ajudara, e características indesejadas nas suas
demandas[6],
se aliaram à aristocracia remanescente e constituíram, entre fevereiro e maio
de 1848, o governo provisório, eliminando muitas das demandas dos
trabalhadores, que revoltados investiram em novas lutas. Se dá nesse momento uma
união de todas as classes contra o proletariado e o mesmo é derrotado nas
Jornadas de Junho.
Erige-se
daí a sua hegemonia. “Cada vez mais a burguesia suprime a dispersão dos meios
de produção, da propriedade e da população. Aglomerou a população, centralizou
os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos, a consequência
necessária disso foi a centralização política” (p. 68).
Autonomia,
Desumanidade e Gênese
Com seu domínio instalado, se expandem os
mecanismos de produção e comercialização. Mas a criação se automatiza em
relação ao criador, e crises comerciais emergem da superprodução; se dão o
desperdício das forças produtivas e das matérias-primas.
Não
bastassem os ciclos de crise há também os aspectos desumanos do processo
produtivo emergente: com a evolução do equipamento, dispensando capacidades ou
habilidades específicas, incentivaram-se aos burgueses a busca por mão de obra
mais barata, onde mulheres e crianças foram empregadas, e exploradas. Não é só:
“terminada temporariamente a exploração do operário pelo fabricante, na medida
em que recebe o seu salário em dinheiro, logo lhe caem em cima os outros
setores da burguesia, o senhorio, o varejista, o agiota, etc.” (p. 71).
Nessa
dicotomia, uma gama significativa da população alimentava o proletariado, e
mesmo membros de classes superiores, devorados pelo processo econômico foram
jogados para as classes trabalhadoras, alimentando-as numericamente e também
intelectualmente[7]. A gênese do proletariado
é, portanto, um efeito colateral da própria práxis produtiva capitalista,
imanente ao próprio processo.
Superação Da Ordem Classista
Marx
afirma que a superação do modelo social vigente passa, necessariamente, pela
superação da ordem classista; para tal se faz imprescindível a “conquista do
poder político pelo proletariado” (p.78).
No
capitalismo não se possui as coisas, mas apenas tem-se o direito de possuí-las,
e para tal é preciso o sacrifício do trabalho e do esforço, ou seja,
desenvolve-se o discurso da conquista da propriedade que incentiva o homem ao
labor, mas não lhe mostra que se trata de uma ficção: a acumulação já fora
realizada – ao longo da acumulação primitiva e subsequentemente na hodierna – e
só resta o direito por buscar um resquício disputado por uma multidão, como
fica claro na passagem abaixo:
Horrorizai-vos
por queremos suprimir a propriedade privada. Mas na sociedade existente, a
vossa, a propriedade privada já está suprimida para nove décimos da população;
ela existe para poucos precisamente pelo fato de não existir nas mãos daqueles
nove décimos... Censurai-nos, portanto, por querermos suprimir uma forma de
propriedade cuja condição necessária de existência é justamente a inexistência de
qualquer propriedade para a imensa maioria da sociedade (p. 81-82).
A única propriedade ipso facto é o salário e “de modo algum queremos abolir essa
apropriação pessoal dos produtos do trabalho... Queremos apenas suprimir o
caráter miserável dessa apropriação, pelo qual o operário só vive para aumentar
o capital” (p. 81). Ou seja, para Marx, o que se suprime realmente são as
ferramentas de exploração sobre o trabalhador; segundo ele “o comunismo não
tira a ninguém o poder de se apropriar de produtos da sociedade; tudo o que ele
faz é retirar de alguém o poder de subjugar o trabalho alheio por meio dessas
apropriações” (p. 82).
Não
apenas na ordem material reside o domínio da burguesia. A infraestrutura[8]
compreende todo o aparato superestrutural[9],
e nele se encontra os aspectos culturais: “que demonstra a história das ideais
senão que a produção intelectual se transforma com a transformação da produção
material? As ideais dominantes de cada época foram sempre as ideais de sua
classe dominante” (p.86). E ainda assim recrimina-se a ação do comunismo em
eliminar esse aspecto axiológico da cultura: “a cultura cuja perda ele lamenta
é, para a enorme maioria, um mero ensaio para atuar como uma máquina” (p. 83).
É
evidente que de imediato a superação de uma ordem não se dará de bom grado; a
burguesia não entregará o que está em sua posse sem se defender, portanto, é
“naturalmente que isso, em princípio, só pode acontecer mediante intervenções
despóticas no direito de propriedade e nas relações de produção burguesas” (p.
87). O proletariado, através do controle político do Estado, retirará pouco a
pouco o capital das mãos dos burgueses e concentrará em si, fazendo uso deles
para realizar a obra comunista e, posteriormente, suprimirá esse poder de si,
pois “os proletários não podem se tornar mestres das forças produtivas de uma
sociedade, a não ser para abolir seu próprio modo anterior de apropriação, e
com ele todo modo anterior de apropriação” (p. 76).
É
assim que a supressão do modo de produção capitalista faz desaparecer a ordem
classista, que nele se fundamenta, e “no lugar da velha sociedade burguesa com
suas classes e seus antagonismos de classe surge uma associação em que o livre
desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos” (p.
89). Emerge dai um novo arranjo social, no qual todos devem contribuir com a
produção sem, no entanto, serem expropriados durante o processo, nem privados
de fruir do produto do próprio trabalho.
Bibliografia
MARX,
Karl, ENGELS, Friedrich.
Manifesto do Partido Comunista, 3ed, São Paulo: EDIPRO, 2015.
MARX,
Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte (versão de kindle).
ARRUDA,
José. História Moderna e Contemporânea, 1975.
MARX, Karl. Livro Primeiro,
Tomo 2, Capitulo XXIV, A Assim Chamada Acumulação Primitiva.
[1]Referência
às Revoluções que eclodiram na França no ano de 1848 e colocaram fim ao reinado
de Luís Felipe.
[2]As
revoluções se fizeram com apoio indispensável das massas, do proletariado e da
pequena-burguesia, cujos interesses, após aproximação da alta-burguesia com
estratos aristocráticos remanescentes, afastaram-se dos seus. (MARX, Karl, 18
de Brumário de Luís Bonaparte).
[3]Referência
ao feudalismo, cujo sistema econômico-produtivo era fechado em si, com
características de subsistência, pouco comércio significativo e estratificação
social.
[4]
A acumulação primitiva tomara formas variadas além da fundiária, a saber, o
entesouramento, o crédito, e financiamentos bélicos.
[5]
Situação na qual o poder era disperso entre os vários senhores feudais.
[6]
As demandas dos trabalhadores versavam sobre melhores condições sociais e
econômicas, quais apresentavam características de planificação, o que não era
visto com bons olhos pelos burgueses.
[7]
Sendo esses membros advindos das classes mais abastadas, eram também mais
letrados, intelectualizados, o conhecimento que vinha contribuir com um
esclarecimento dos estratos inferiores.
[8]
Bases materiais, econômicas: as relações de produção e comercialização.
[9]
Todo aparato constitutivo a partir da infraestrutura: instituições políticas,
sociais, religiosas e culturais.
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