Da Série: Exercício Em Um Esforço de Criação


Servidão (In)Voluntária
O Peso Dos Arquétipos E A Redução Dos Caminhos Possíveis

Introdução

Vários são os tratados que discutem os direitos do homem e as possibilidades do ser. Em praticamente todos, a liberdade ocupa espaço notório.
No processo sociológico, todavia, é manifesta a convergência de fatores que se objetivam na miscelânea da realidade; esta impõe à essência humana o filtro da realidade passageira na qual eles tomam corpo, se definem e coexistem, enquanto simultânea, e mutuamente, se transformam.
            Qual o espaço da liberdade dentro de um complexo fenomenológico que desenha o homem à sua imagem? Seriam as escolhas disponíveis, de fato, deliberáveis pelo homem? Seriam elas, todas as possíveis?
            É com fito a responder estas questões que o texto se dá o estudo da genealogia social, buscando compreender os elementos que possibilitam a coesão social, estruturam a sociedade e alimentam a tábula rasa do homem.
            Para tal empreitada explanar-se-ão, ao longo do debate sobre a liberdade de escolha, como se constroem os arquétipos coletivos e os mecanismos de controle social pelo inconsciente, através da introjeção de valores, interesses, gostos e desejos.


As Condições De Liberdade

O que será debatido é a relação da palavra escolha com a possibilidade para fazê-la em deliberação plena. O que permeia esse debate é que há um conjunto de fatores que subjaz cada processo de escolha, e em alguns casos a injustiça resultante não dá direito de tal escolha se considerar realizada em liberdade.
Há quem diga que o homem sempre tem a liberdade de escolha. Mas estes que o afirmam nunca entraram no mérito das possibilidades disponíveis. Mais do que apresentar as variáveis, seria preciso atribuir valores a elas e às consequências; o que leva a um estudo da justiça por trás das opções possíveis. Elencar a morte, a dor, a mendicância ou o sofrimento, como alternativa de escolha é elencar o caminho da desumanidade e da inumanidade.
É neste sentido que se coloca a questão: seria mesmo verdade que o homem sempre tem escolha? Na mesma direção da supracitada reflexão, será mostrado que não. Ainda que o mesmo, na trajetória histórica do processo civilizatório, tenha incorrido em atrocidades contra seus pares e contra si, tal fato se deve a falta de conhecimento. Não há exclusivamente maldade inata na condição humana, mas uma essência em potencial, que é lapidada nesta trajetória por complexos fenomenológicos que fazem emergir certos comportamentos, que se objetivam em uma realidade efêmera.
Atentar contra a própria vida, ou a de outrem, não deve caracterizar uma natureza do gênero humano, mas um comportamento selecionado no processo sociológico e histórico, ou seja, uma imposição do meio sobre a essência. Se o homem está permanentemente nessa relação de condicionante condicionado com o meio, é no produto dessa relação que se deve buscar os elementos que determinam ambos, o homem e o meio. E é neste produto relacional que se dará a genealogia social.
Outro ponto importante é o da dignidade. Não há justiça na escolha que coloque como alternativa a supressão da dignidade do ser. Pode-se aceitar, de fato, que todas as possibilidades são realizáveis; mas afirma-las de livre escolha, tendo por princípio o discurso que todos a possuem, não é tolerável, pois nem toda possibilidade respeita a dignidade e a justiça.
Com o que foi colocado até agora, pode-se afirmar que há pré-requisitos, condições ideais para nomear algo de escolha propriamente. Em síntese qualquer condição cuja alternativa incorra em sofrimento, humilhação e degeneração do homem, tal não pode configurar escolha ipso facto, mas uma imposição de caminhos que incorre em injustiça e desumanidade.
É evidente que aqueles que afirmam a plena liberdade de escolha, jamais se encontraram em condições materiais e psicológicas críticas que colocassem em jogo a dignidade e integridade dos envolvidos.
Mas, enfim, nem toda escolha se dá em condições críticas, e nem por isso o problema da sua falta de liberdade deixa de existir. Enveredando para as escolhas simples do dia-a-dia, será possível visualizar sua estreita margem de possibilidades.

O Mito da Liberdade

O entendimento humano se pauta no processo comparativo; isso implica deliberação sobre várias possibilidades disponíveis e a posterior escolha entre alguma delas. A resultante é a aparência de liberdade no processo de escolha e nisso se funda o mito da liberdade.
O fato é que o indivíduo só tem condições de escolher dentro daquele leque de conhecimento e possibilidades que lhe cabem e lhe permitem fazê-lo. Ou seja, o arcabouço informacional, constituído ao longo da vida de cada um, no processo educacional, nas relações familiares, profissionais, instituídos pela mídia, pela religião, pelo governo, ou seja, todo o substrato informacional que permeia a sociedade alimenta o banco de dados ao qual o cérebro remete no processo de escolha.
Já foi colocado que o homem é o resultado efêmero – cada nova informação permite ao indivíduo uma nova percepção da realidade, menos em um sentido metafisico (porém não isento dele), mais em um sentido político-social, por isso a realidade é passageira – de um convergir de fatores que lapidam sua essência e o objetivam como tal. Isso significa que cada indivíduo é uma singularidade perfeita cujo comportamento coaduna sua essência e sua materialidade, podendo emergir daí um ser com maior ou menor consciência de si e do todo.
A ressalva supracitada pretende esclarecer que há alguma autonomia do ser frente as suas ações; ela depende do grau de consciência deste, dos processos que determinam a sua percepção da realidade. Mas isso não suplanta o processo pelo qual se dá a constituição da escolha. É nesse sentido que se afirma que a liberdade, como muitos aventam é, na verdade, um mito. E ela é tão mais restrita quanto menor é o conhecimento do indivíduo. O homem não escolhe o que quer e como quer, mas escolhe dentro de um leque de possibilidades no uso do conhecimento que ele possui para fazê-lo, portanto, a liberdade pura é um mito, pois ela é totalmente condicional.
Tal fator não deveria ser um problema, posto que se trate de uma naturalidade, mas torna-se um quando há um aproveitamento sobre essa falta de conhecimento. A hierarquia social se perpetra no uso desse recurso através do controle seletivo da informação, quantitativa como qualitativamente; enquanto igualam a todos em liberdade de escolha perpetra-se o discurso legitimador do sucesso de alguns e do fracasso de outros, enquanto ignoram-se suas bases informacionais.
Isto posto, o que compete agora descobrir é como se constitui esse banco de dados que permite o entendimento e a coesão social, e como ele é utilizado para a manutenção do status quo.

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