Ser Humano: Uma Equação De Infinitas Variáveis – Análise Dos Efeitos Da Revolução Industrial
A
curva que abarca a trajetória histórica do homem, tanto da evolução material
como da espiritual (em sentido de consciência), não segue em linha reta, mas
varia exponencialmente a partir de certas variáveis.
A “retomada” do pensamento
clássico pelo movimento renascentista, a emancipação dos limites
dogmáticos e a descoberta de novos povos ao redor do mundo (contribuindo com a
discussão cultural, existencial e essencial do ser humano), tornaram os homens
senhores de si mesmos; esse conjunto de fatores compõe algumas das variáveis
significativas que determinaram (e ainda determinam) a inclinação mais acentuada da curva histórica.
Se
tais fatores correspondem a pontos de inflexão (ponto em que uma curva inverte
seu sinal, ou seja, inverte seu sentido de inclinação), ou apenas de
potencialização, os resultados históricos (e a perspectiva sobre eles) que hão
de decidir. Mas uma obviedade é patente: o homem não só tornou-se senhor de si,
mas especializou-se em ser o senhor do outro; perpetrou tal arte contrariamente
ao uso despótico, ou tirânico, do poder (típico na trajetória histórica até à emergência
do Estado), mas através do seu exercício introjetado pelo hábito, pela cultura, e
pelas instituições (ironicamente, também pelo Estado).
Assim,
a Revolução Industrial emerge como
uma variável exponencial da transformação do tecido social, no processo
de transição do feudalismo para o capitalismo. A criatividade Iluminada do homem, agora ampliada pelas
possibilidades técnicas e materiais, permitiram transformar, potencializar e
mesmo criar mecanismos de otimização produtiva, enriquecimento individual –
para aqueles aventureiros animados pelo potencial irrestrito da união entre
técnica, ciência, arte e indústria; e para aqueles beneficiados por uma prévia
acumulação primitiva, permitindo inversões significativas nas novidades
científicas e industriais – e nacional.
A
conjuntura econômica (derrocada do mercantilismo e ascensão do capitalismo),
científica e tecnológica (produtos da razão e do empirismo científico), e
espiritual (em que o espírito do
capitalismo animava os homens), permitiu a transição dos modelos
produtivos, pautados na manufatura familiar, para os de cooperativa, deste para
as manufaturas organizadas em galpões, e posteriormente, para a fábrica, na
qual a produção se dava pelo maquinismo autômato. É nessa trajetória que se
inscreve a realidade do trabalhador industrial, e dela que se retira a
explicação de como se perpetrou o processo de expropriação do trabalhador e
sujeição do indivíduo – na sua esfera particular e profissional – ao capital.
A
produção artesanal, executada pelo indivíduo detentor do conhecimento, dos
equipamentos e da vontade, representara na história um papel significativo, enquanto seu produto satisfazia as necessidades feudais em comercializações
fechadas e diminutas. Mas a derrocada do modelo feudal, o aumento da
comercialização e das demandas impuseram transformações necessárias; eis que o
modelo produtivo sistematiza uma organização familiar dividida em atividades afins,
com fito a melhorar os resultados. Dessa forma, dando salto histórico que
abarca anos de transição de um modelo a outro, emerge a manufatura familiar, em
que os membros de uma família, além dos servos e empregados, compõem uma
pequena sequência de trabalhos nos quais cada qual executa uma tarefa
específica.
Posto
que a velocidade das transformações histórico-sociais tonara-se acentuada, a manufatura familiar
e a cooperativa – que é bastante similar, porém, mais abrangente quanto à sua constituição
–, encontram seu fim na organização da sua produção sob uma mesma área (uma espécie
de galpão), de forma que a manufatura
seja a associação de indivíduos na realização de tipos específicos de trabalho,
chamado trabalho coletivo, em que as aptidões para cada tarefa direcionam o
trabalhador para aquela em específico, fazendo o uso otimizado do mesmo; ou
seja, “quando as diferentes operações são separadas, isoladas e tornadas
independentes, os operários são distribuídos, classificados e agrupados segundo
suas aptidões especificas” (p. 23)
Há
nesse princípio uma lógica de especialização, porém, que se manifesta
exclusivista a tal ponto que as demais capacidades devem ceder espaço para
apenas uma. Ou seja, a dedicação deve se dar em uma única função que aparente ser
afeita ao trabalhador, e cuja otimização resulta na atrofia das demais
capacidades; é neste sentido que se afirma: “quanto mais incompleto, e até
imperfeito for o trabalhador parcial, mais será ele perfeito como parte do
trabalho coletivo” (p. 23)
Posto
que cada aptidão aplica-se sobre uma determinada etapa do processo produtivo, e
que faz uso de partes diferentes do corpo, ou mesmo de intensidade variada das
mesmas partes, deduz-se que cada produto seja remunerado diferentemente,
instaurando assim uma hierarquia entre os trabalhos, dos mais relevantes e
melhor remunerados aos menos relevantes cuja remuneração é inferior. Ou seja,
“a manufatura desenvolve por isso uma hierarquia das forças de trabalho, a qual
corresponde uma escala de salário” (p. 24).
Há, todavia, tipos de trabalhos na
manufatura que não exigem nenhuma competência especial, sendo preenchidos por
indivíduos que aparentemente não apresentam nenhuma aptidão específica. O
resultado é que, “ao lado da gradação hierárquica, temos então a divisão dos
trabalhadores em hábeis e inábeis” (p.24), independente se de fato o são.
Então, a manufatura “estropia o trabalhador e faz dele uma espécie de monstro,
favorecendo, como numa estufa, o desenvolvimento de habilidades parciais,
suprimindo todo um mundo de instintos e capacidades” (p. 25).
Cada vez mais o trabalho
manufatureiro é dividido em etapas que exigem menos conhecimento técnico para
executá-los, de forma que se torna desnecessária a inversão no ensino dos
processos produtivos. Incute-se cada vez mais a alienação, extrai-se cada vez
mais a mais-valia – visto o aumento
da força produtiva e a redução dos custos de produção pautados no ensino do
trabalho – e se sujeita cada vez mais o trabalhador ao capital – através da
massificação profissional, de forma que a especialidade de cada trabalhador
tenha pouco ou nenhum significado para o capitalista, ao mesmo tempo em que há
um exército reserva do trabalho.
Nessa condição “o trabalhador de
manufatura não desenvolve mais atividade produtiva a não ser como acessório da
oficina do capitalista” (p. 25-26), ele torna-se, independente da sua vontade,
uma propriedade do capital, cujas próprias ferramentas de emancipação, no caso,
os caminhos propiciados pela intelectualidade, lhes são negados, posto que a
apropriação do conhecimento pelo capitalista é patente, assim, “a divisão
manufatureira do trabalho opõe ao trabalhador as forças intelectuais do
processo material de produção como uma propriedade exterior a ele, uma força
que o domina[...]” (p.26).
Essa categoria de trabalho
repetitivo e enfadonho atrofia as capacidades intelectuais, cognitivas e
criativas do trabalhador, de modo que se apresente como ameaça à saúde do
gênero humano; tanto que “para impedir o definhamento completo da massa
operária, resultante da divisão do trabalho, A. Smith recomenda a instrução
popular obrigatória", todavia, conhecimento demais para o povo é sempre
perigoso para aqueles que estão no comando, por isso ele segue quanto a sua
recomendação: que ela seja feita “em doses homeopáticas” (p.27).
Sugestão essa que fora considera
ruim ao funcionamento do processo produtivo de então, visto seu sucesso no
enriquecimento nacional, ou seja, o trabalhador rende mais quanto menor
qualificado ele era; por essa lógica, “deveria então o governo procurar
contrariar essa divisão do trabalho, e atrasar-lhe a marcha natural? Deveria
empregar uma parte da receita pública para tentar confundir e misturar duas
classes que tendem por si mesmas em se separar?” (p. 27-28).
A naturalização de contingencias é
uma argumentação típica dos estratos sociais para sua manutenção hegemônica. O
fato é que inicialmente o processo histórico arrasta o homem naturalmente a
certos desenvolvimentos, mas depois de certa etapa a consciência dos processos
não mais dá o direito de se usar da natureza dos fatos. A manufatura se dá da
mesma forma, “por um lado, aparece como processo histórico e fator necessário
de desenvolvimento no processo de formação econômica da sociedade, mas, por
outro lado, ela se revela como meio de exploração civilizada e refinada” (p.
29).
O ápice da exploração e sujeição do
trabalhador ao capital se dá na fábrica. Aqui, sob o mesmo teto, concentram-se
o conjunto de manufaturas em linha de produção, concentram-se todas as etapas
do processo produtivo, organizadas e automatizadas, de forma que a fábrica não
exige capacidades especiais para a realização do trabalho, especialmente porque
“a rapidez com a qual as crianças aprendem a trabalhar com as máquinas suprime
a necessidade de formar especialmente classes de operários para esse trabalho”
(p. 30).
Com isso a fábrica termina o
processo que se inicia na manufatura, em que “há um abuso da maquinaria para
tornar o operário, desde pequeno, elemento de uma maquina parcial”; é assim que
“na manufatura, os trabalhadores são membros de um mecanismo vivo, na fábrica
são apenas os complementos vivos de um mecanismo morto que existe independe
deles” (p. 31).
As consequências supracitadas são
parte dos efeitos dessa variável, Revolução Industrial, na trajetória histórica
do homem. Deste de então a curva na qual se inscreve a vida humana se acentua
cada vez mais; aparentemente inscrito em um projeto de exploração dos seus pares,
e de abuso aos recursos planetários, o homem perpetra o projeto de
autodestruição, qual a evolução material não lhe permite notar.
André
Gorz – Karl Marx - Da Manufatura à Fábrica Automática
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