Um Esforço de Interpretação: Fundamentos Biológicos da Geografia Humana
Max Sorre nasce (1880) em uma época em que a geografia já lutava por sua autonomia das demais ciências. A contribuição de estudiosos de várias áreas, especialmente Humboldt, solidificaram os conhecimentos que serviriam de substrato para o pensamento geográfico. Já no fim do século XIX ela assume uma vontade de teorização com a postulação de princípios (SANTOS). É neste sentido que Sorre afirma que “o modo de conceber as relações entre o organismo humano e o meio geográfico mudou prodigiosamente durante o ultimo século e meio”.
O texto “Os Fundamentos Biológicos da Geografia Humana” não se pretende uma redução da Geografia Humana ao estrito conceito de Ecologia Humana. Mais do que o estudo de um equilíbrio entre homem e natureza, o texto busca elencar os elementos em constante mutação e adaptação, que sustente essa relação dinâmica.
Para Sorre as ciências, de modo geral, e a Geografia em especial, estão em condições melhores, material e comparativamente falando, em relação às possibilidades da empreitada que se propõem. Mesmo que a trajetória cientificista não seja contínua, ela ainda assim, permite seu desenvolvimento. A disponibilidade de dados e a sistematização da ciência permitem um desenvolvimento mais preciso das respectivas teorias, é com essa perspectiva que ele fala sobre o conhecimento acumulado ao longo da trajetória das ciências da seguinte forma: “o que foi adquirido em um ponto capital permanece adquirido e transforma para sempre nossa concepção geral das coisas”, e sobre a geografia propriamente: “mesmo quando usamos palavras antigas, falamos uma língua que nunca foi ouvida. O interesse de um estudo como o que realizamos é concentrar a atenção sucessivamente em todos os elementos do meio geográfico e em todas as respostas do organismo”.
E com essa perspectiva afirmamos que a epistemologia é dialética; não se sustenta sobre os mesmos pilares, não percorre os mesmos caminhos, mas dão ao homem cada vez mais perspectiva ampliada de si e do mundo.
Na evolução científica do estudo da geografia humana, ultrapassada as perspectivas naturalistas, recaem sobre os fundamentos biológicos as novas propostas. É por essa trajetória que percorrerá este texto. Sua apresentação se dará separadamente para fins didáticos, mas é necessário ter em mente que Sorre não elege nenhum fator como exclusivamente determinista, mas explana sobre uma morfogênese do ecúmeno.
Iniciando com os fatores geográficos deduz-se que são explicados pelas variáveis imediatas em cada região, sendo o clima a principal delas: determinadas posições geográficas contém, regulados pelo clima, tipos específicos de vegetação e de animais, dos quais o homem pode se alimentar, ou seja, o clima determina as disposições nutricionais, como podemos ler:
O clima determina seus limites (do ecúmeno) e as margens de tolerância nas quais as possibilidades de adaptação dos organismos humanos se desdobram. Ele regula o reparo de associações de animais e plantas, à custa das quais o homem satisfaz suas necessidades alimentares (destaque nosso).
O clima também é responsável, em parte, por permitir que determinados complexos patogênicos subsistam ou pereçam. O sentido parcial da sua ação se deve a intervenção humana. Com isso pretende-se dizer que há grupos de doenças cuja proliferação, controle e manutenção estão sob o controle climático. Estando o clima suscetível à alteração pela ação humana, é evidente que não caiba exclusivamente àquele a responsabilidade pelo controle desses grupos de doenças.
Outra relação do clima com o homem é sua influência sobre as funções mentais e as disposições físicas. Quanto às disposições físicas, é apresentado o fato das mudanças nas respostas fisiológicas em diferentes condições geográficas, o exemplo dado é do que ele chama de cronaxia: é o tempo fisiológico característico da excitabilidade de cada órgão ou tecido, especialmente dos nervos e dos músculos, em determinadas condições.
Quanto às funções mentais, a realidade é o substrato do qual o homem retira, e aplica, simultaneamente, seu entendimento de mundo e de si. O clima, como elemento determinante da flora e fauna, dos aspectos nutricionais, e do conjunto do habitat colabora no sentido da construção da consciência humana. Com essa ideia Sorre abarca os traços da psique humana, e inclui no determinismo geográfico, através das funções mentais, a construção da autonomia da consciência do indivíduo; um exemplo disso é o fato de em determinadas culturas, mesmo em climas quentes, os povos fazem uso de burcas e roupas pretas; traços culturais, contra a lógica do bem-estar em função do clima. É nesse sentido que ele afirma:
Por outro
lado, evoquei muitas vezes ao longo destas páginas o importante papel dos
sentimentos, das ideias, das disposições dos homens na explicação dos aspectos
geográficos da sua atividade. Nada é completamente explicado por equações
energéticas. Há em todas as coisas uma parte do sonho e da ilusão.
Mas para Sorre, entre os fatores que condicionam o homem, considerando internos e externos, o mais importante é o fator biológico:
As demandas
do corpo do homem, seu estado de saúde, a eficácia de seu esforço físico e
mental, a flexibilidade de suas adaptações ao meio ambiente, é nestes dados
onde temos que olhar, em primeiro lugar, para as condições da conquista do
globo e as profundas razões para a variedade dos povos.
Foi a flexibilidade da adaptação genética humana que possibilitara sua dispersão pelo mundo e o surgimento de povos variados em sua adaptabilidade a cada cenário natural, a cada ecossistema diferente, a cada conjunto climático, suas disposições nutricionais, seus grupos patogênicos.
Os estudos de Sorre sobre os complexos patogênicos foram utilizados inclusive na medicina, quanto às doenças e os complexos que permitiam sua proliferação, como ele diz: “estes expressam equilíbrios em perpétua transformação, e sua evolução se traduz em mudanças nas áreas de doenças infecciosas”. Os complexos patogênicos são, portanto, o conjunto de fatores que permitem às infecções e bactérias a sua manutenção, proliferação e adaptabilidade.
A sua peculiaridade na relação humana é justamente o papel deste na estrutura desses complexos. O papel do homem não apenas de vetor ou hospedeiro, mas o de transformador ecológico por excelência, de modo que ele mesmo cria condições para a manifestação de determinados grupos patogênicos. O desmatamento, enquanto altera o clima e a umidade, dá condições do surgimento de doenças anteriormente controladas.
É evidente que as variáveis externas se impõem ao homem, mas é a através da sua relação com ele, e não exclusivamente sobre ele, que se constitui a Geografia Humana. Ou seja, a realidade da qual o homem toma consciência é relacional, somente explicável dentro da relação homem-natureza. É como um princípio antrópico sócio espacial, em que cada realidade só pode existir dentro de relações, e quando essas relações são alteradas, ou destruídas, a realidade adquiri novas feições e dá ao homem novas perspectivas de dela e de si.
É neste sentido que os fatores nutricionais, climáticos e geográficos são elencados como os fatores naturais, mas existe também a trajetória histórica e a adaptabilidade genética enfrentando e se adaptando aos grupos patogênicos e as variações climáticas, além dos efeitos sobre a fisiologia humana quanto as diposições físicas e mentais.
Portanto, a trajetória histórica inclui todas as transformações materiais perpetradas pelo homem através do processo civilizatório (constituição de sociedades, alteração da geografia física e espacial, superação das imposições geográficas – climas artificiais) além da evolução racional e científica que possibilitaram a superação da mortalidade precoce.
O ecúmeno é, então, esta área ocupada pelo homem que adquiri características exclusivas, intrínsecas, desta relação entre homem e natureza. Estabelece-se uma relação de simultaneidade entre eles, mutuamente condicionados condicionantes.
No ecúmeno vemos a constante mutação genética, patogênica e fisiológica associadas às transformações materiais promovidas pelo homem, como superação dos limites climáticos, das doenças fatais, da mortalidade infantil e do uso dos recursos minerais e energéticos no enfrentamento das intempéries naturais e culturais.
Isto posto, levantam-se questões que já foram colocadas por outros autores – Malthus é um deles – quanto a capacidade nutricional do planeta em um cenário de constante superação da morte pelo homem; ou os riscos da constante evolução dos grupos patogênicos e nossa finita capacidade de adaptação genética.
Segundo Sorre, há regiões em que a redução da produtividade do solo já fora constatada, e mesmo os milagres da química não podem resolvê-la:
Geógrafos e
biólogos que realizaram cálculos sobre a densidade potencial do globo ou sua
habitabilidade não perseguiram fantasmas vãos. Eles ficaram surpresos com a
diminuição da fertilidade do solo, que poderia ser considerada inesgotável,
pela deterioração de grandes áreas depois de uma exploração abusiva.
Também é colocada a questão do limite da adaptabilidade genética do homem: “a flexibilidade dos ajustes que permitem ao organismo humano manter suas características no campo em que podem oscilar também tem seus limites”. Mas, mesmo com esses limites, a superação da sua morte precoce coloca a questão da disponibilidade de alimentos frente à projeção populacional: “(...) os resultados da aplicação de dados científicos à exploração do meio ambiente e à defesa do indivíduo na dureza da competência vital foram até agora favoráveis à expansão do ecúmeno e, em certo sentido, à sua padronização”. O que deveria servir como acalento, é também uma faca de dois gumes, a longevidade humana, e a superação da mortalidade precoce se apresenta como risco pra própria espécie.
Somado a esses problemas tem-se o enfrentamento dos complexos patogênicos tão adaptativos quanto o homem. De forma que se apresentam como perigo à sobrevivência humana: “nada nos garante que, no futuro, seremos capazes de rejeitar com sucesso o ataque multiforme do parasitismo”.
Enquanto o enfrentamento quanto aos meios predatórios não for realizado, a educação em escala mundial não reduzir a natalidade, e o conceito de necessidade não for reajustado, ou seja, os problemas resolvidos o ecúmeno encontrará, assim, seu fim.
É com essa perspectiva que Sorre diz:
Não há razão
para acreditar que a humanidade irá escapar do destino universal. Índices muito
leves nos advertem que os climas devem continuar a variar diante de nossos
próprios olhos. O ambiente natural em que vivemos está em constante mudança, e
o destino das doenças infecciosas se mostram nas engenhosas e variadas formas
de ataque.
Assim o homem, em sua relação com a natureza, constituíra um mundo único, uma realidade com suas peculiaridades, assimetrias e superações. Porém fecundo do próprio fim. O ecúmeno naturalmente caminha para sua desagregação, redução e morte. Impõem-se as questões dos limites da adaptabilidade ao clima, em constante variação, e aos complexos patogênicos, em constante mutação; das disposições alimentares, que enfrentam reduções pelo uso predatório das terras; e das capacidades humanas de superação artificial dos limites naturais.
O homem é seu próprio fim. Antropologicamente, teleologicamente e a própria causa mortis.
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