Da Série - Um Exercício de Interpretação: Lugar e Valor do Indivíduo


Não há como estabelecer o princípio de causa e efeito na constituição do ecúmeno (SORRE). Santos afirma que “tais determinações não poderão ser analisadas a partir de relações de causa e efeito, onde aparecem apenas os laços de imediatidade. Assim, tudo que não é contíguo, nem consecutivo, escapa à definição do universo mais vasto de acontecimentos que criam uma situação. Somente o contexto, quer dizer, a teia unitária, que é mais do que síntese total das variáveis, pode fornecer os elementos de explicação que se buscam” (O Espaço Geográfico Como Categoria Filosófica, p. 15). A constituição da realidade humana se perpetra por uma espécie de princípio antrópico sócio espacial – condição existencial em que os elementos constitutivos da realidade objetivada são intrinsecamente dependentes, portanto, qualquer alteração destes elementos manifesta-se em nova percepção da realidade –, em uma relação de condicionantes condicionados perpetrados na dialética social.
Dito isto, o conjunto fenomenológico que dá causa à existência e a realidade humana, se compõe, na trajetória histórica, da sua ação sobre a natureza – e esta sobre ele – concomitante ao processo civilizatório, de forma que esta realidade seja as consequências manifestas – visíveis ou invisíveis – da relação homem/natureza. Logo:
O espaço não é nem uma coisa, nem um sistema de coisas, senão uma realidade relacional: coisas e relações juntas. Eis por que sua definição não pode ser encontrada senão em relação a outras realidades: a natureza e a sociedade, mediatizadas pelo trabalho. (...) O espaço deve ser considerado como um conjunto indissociável de que participam, de um lado, certo arranjo de objetos geográficos, objetos naturais e objetos sociais, e, de outro, a vida que os preenche e os anima, ou seja, a sociedade em movimento.(SANTOS, A Geografia e a Nova Dimensão do Planeta, p. 16)
A estrutura da sociedade – tanto espacial como social – emerge do processo civilizatório totalmente seccionada. Em seus espaços de manifestação gravitam os correlatos determinados no mesmo processo, ou seja, os estratos sociais habitam nas áreas que lhes são disponibilizadas, ou impostas, e que rotulam em seus habitantes valores, simbólicos e econômicos, além de condicionar-lhes as possibilidades de emancipação. 
Posto que o Espaço Geográfico seja a objetivação da morfogênese – conjunto de fatores subjacentes à existência enquanto tal – que lhe dá causa, é neste conjunto fenomenológico que residem as especificidades: geográficas, materiais, simbólicas, sociais, econômicas, culturais e políticas, que conjuntamente constituem estes microcosmos que dão forma ao tecido social e ao supracitado Espaço Geográfico, qual habitam os indivíduos enquanto receptáculos dessa convergência de variáveis.
Milton Santos diz que o valor do indivíduo é determinando pelo local que este habita. É evidente que Santos descreve o que se verifica na sociedade, a saber, o uso axiológico do conceito de valor. Qualquer microcosmo gravita ao redor de si aqueles que satisfaçam suas demandas, dotando estes de valor, mas nem por isso esse valor é reconhecido em outras localizações, ou esferas sociais. É neste sentido que ele explicita o determinismo do valor do indivíduo pela sua localização: “pessoas, com as mesmas virtualidades, a mesma formação, até mesmo o mesmo salário têm valor diferente segundo o lugar em que vivem”. O que está por trás dessa afirmação não é uma noção relativista, compreendida nos valores selecionados por cada microcosmo, mas o estabelecimento de uma referência comportamental, ideológica, à qual o produto do determinismo territorial toma referência.
Há vários elementos que convergem para a realidade manifesta, e que, no presente caso, induzem a permanência ou a saída de pessoas, ou grupos, de determinadas áreas. Mas um elemento significativo da ordem fenomenológica são as razões econômicas. Ou seja, os meios materiais – dinheiro, crédito, posses, trabalho – permitem, ou não, um modelo de vida que atenda às necessidades humanas. É com base nessa possibilidade que os indivíduos detêm mobilidade ou não, e esta é quem permite aos indivíduos a fuga de espaços nocivos, ou a busca por lugares que atendam às suas necessidades, ou seja, que lhes dotem de algum valor.
Com o que foi dito acima, pode-se apontar nos motivos da mobilidade, a busca por lugares que correspondam ao nível social e à renda de cada um. Partindo dessa lógica, somente quem tem meios de fazê-lo realiza essa mudança para locais que correspondam às suas expectativas valorativas, e aqueles que não podem fazê-lo resignam-se à permanência e às restrições imanentes.
Esta diferença na mobilidade reforça a divisão, espacial, econômica e simbólica, em estratos sociais, resultando em áreas ocupadas por nichos econômicos específicos; ainda que haja pontos fora da curva, no geral a possiblidade econômica de alguns reforça seu distanciamento, geográfico e social, das demais classes – geralmente inferiores – relegando àquelas impossibilitadas de mudar, todas as restrições impostas pela condição de exclusão de áreas específicas, largamente mais próximas (espacial e simbolicamente) do Estado, das comodidades comerciais, do lazer e das facilidades do dia a dia – transporte, escolas, hospitais, segurança, supermercados, etc.
Gradativamente esse valor toma forma através das suas relações econômicas e políticas. Sua essência remete ao habitus (BOURDIEU) – conjunto de características, legítimas ou miméticas, que remetem a determinadas classes: como formas de vestir, falar, socializar, etc, e que possibilitem identificar a quais estratos sociais se pertence – da classe hegemônica, e é por essas perspectivas que se dá a atribuição de valor aos indivíduos.
Pela perspectiva do capital simbólico, em territórios diferentes, ou em um mesmo território dividido em estratos sociais, o valor do indivíduo também pode variar. Tal mudança está relacionada com o conjunto fenomenológico constituinte do espaço em questão, que possui demandas específicas, elegendo os que satisfaçam essas demandas como os de maior valor. Porém esse valor relativista é obliterado pelo valor hegemonicamente imposto, como já foi dito. Um exemplo inusitado pode ajudar a compreender essa relação: em uma comunidade pobre, tem mais valor aqueles que se envolvem nas atividades ilícitas à bem da mesma do que um trabalhador padrão, mas pela perspectiva do consumo, o trabalhador tem mais valor do que estes indivíduos. Evidentemente, que ambos, por morarem em uma comunidade pobre, certamente possuem menor valor do que pessoal de outras localidades mais nobres. Enfim, isso só vem ilustrar como o valor do indivíduo está tão atrelado ao local que habita quanto ao comportamento economicamente ativo.
Desta forma, é também através do valor enquanto resultante econômica – em que versam os salários, os preços, a produção e a comercialização – que se pauta a referência valorativa do indivíduo; este também é determinado pelo território em que se encontra cada um: “consideramos também que o valor do homem, assim como o do Capital em todas as suas formas, depende de sua localização no espaço”. Portanto, como já se disse, há uma relação entre valores econômicos e simbólicos.
Há, em todas as cidades, uma parcela da população que não dispõe de condições para se transferir da casa em que mora, isto é, para mudar de bairro, e que pode ver explicada a sua pobreza pelo fato de o bairro de sua residência não contar com serviços públicos, vender serviços privados a alto preço, obrigar os residentes a importantes despesas de transporte. Nesse caso, pelo fato de não dispor de mais recursos, o indivíduo é condenado a permanecer num bairro desprovido de serviços e onde, pelo fato de ser um bairro pobre, os produtos e bens são comprados a preços mais altos, tudo isso contribuindo para que a sua pobreza seja ainda maior e sua capacidade de mobilidade dentro da cidade seja igualmente menor. (SANTOS, Lugar e Valor do Indivíduo).
 Partindo da informação de como o Espaço Geográfico é importante no que tange à produção e comercialização, é evidente que não há apenas a mão invisível (SMITH) regendo a disposição sócio espacial; fato verificado em políticas habitacionais fomentadas pelo governo, em que as áreas residenciais do pacote estão descentralizadas, relegadas à periferia e que condensam em si representantes de baixa renda e nível social, cultural e intelectual. Quem tem condições de escapar dessa setorização da classe baixa escapa dos vários efeitos nocivos desse ajuntamento pernicioso.
O resultado do distanciamento das áreas de esferas de poder – instituições políticas e sociais – reflete-se também na distribuição desigual da informação. Iletrados, desinformados e desmunidos de respaldo institucional; essas áreas tornam-se, assim, âncoras no processo de emancipação social e geográfico. Nota-se, então, que a cidadania fica circunscrita ao modelo sistêmico, à realização dos interesses políticos e econômicos, posto que o exercício de cidadania seja reduzido ao pagamento de impostos, ao consumo e à obediência civil – desenhada por uma sociedade de consumo na defesa da própria subserviência.

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